domingo 21, junho, 2026 - 20:20

Esporte

O futebol é um laboratório das paixões humanas – 21/06/2026 – CasaFolha na Copa

O futebol é um esporte coletivo que entretém bilhões de aficionados e torcedores. Nove

image_printImprimir


O futebol é um esporte coletivo que entretém bilhões de aficionados e torcedores. Noventa minutos, 22 jogadores, uma bola e um placar. Divertimento e ócio de segunda a domingo. No entanto, qualquer pessoa que já tenha acompanhado uma partida decisiva sabe que há muito mais em jogo.

O futebol é um extraordinário laboratório das paixões humanas. Nele encontramos alegrias intensas, tristezas profundas, bem como temores e esperanças que resistem até o apito final. Encontramos também desejos manifestos aos gritos repetidos pela turba eufórica e vontades mais cautelosas, explicadas nas lives dos youtubers. Poucas experiências humanas esclarecem com tanta acuidade noções filosóficas preciosas. De Espinosa e Kant.

Para Espinosa, os afetos fundamentais que organizam nossa vida emocional são a alegria, a tristeza.

A alegria corresponde a uma passagem para um estado de maior potência do próprio ser. É ganho de potência para agir. E de tesão pela vida. Já a tristeza é o seu contrário. Apequenamento. Perda de tônus. Brochada implacável.

No futebol, alegrias e tristezas vêm antecedidas de dois afetos: a esperança e o temor. Estes formam um par inseparável. Na esperança há ganho de potência ante a expectativa de uma ocorrência desejada, mas ignorada. Já o temor é queda de potência, também decorrente de uma ocorrência apenas imaginada, mas indesejada. E o futebol entra onde nessa história?

Observe um torcedor. Quando seu time marca um gol, ele experimenta uma explosão de alegria. Sua capacidade de agir, sonhar e celebrar parece ampliar-se. O mundo torna-se mais leve. Em contrapartida, quando o adversário marca, surge a tristeza. O torcedor sente-se diminuído, abatido, como se uma parte de sua energia tivesse sido retirada.

Mais interessante ainda é o que acontece antes do jogo. O torcedor oscila entre a esperança e o temor. Espera a vitória, imagina a taça, projeta comemorações. Mas também teme a derrota, o fracasso e a frustração. O futebol confirma Espinosa como um exemplo de manual: não esperamos sem temer nem tememos sem conservar alguma esperança.

O futebol também permite refletir sobre a distinção entre desejo e vontade proposta por Kant. O desejo está ligado às inclinações, aos impulsos e às satisfações que buscamos. A vontade, por sua vez, é a faculdade racional de determinar nossas ações segundo princípios que reconhecemos como corretos.

Um aficionado deseja e torce pela vitória de seu time. Esse desejo nasce de uma paixão, de uma história afetiva. Ao mesmo tempo, pode reconhecer que um gol irregular deve ser anulado, mesmo em prejuízo de sua equipe. Neste caso, manifesta a sua vontade, orientada pela razão e pela justiça.

Para Kant, o valor moral de uma ação não está em satisfazer desejos, mas em agir conforme aquilo que a razão reconhece como dever. Vitória da vontade sobre qualquer impulso desejante.

Talvez seja essa a grande riqueza filosófica do futebol. Ele não se reduz a um espetáculo ou enfrentamento de habilidades físicas. É também um espelho da condição humana.

Como outros esportes, não permite apenas ganhar ou perder. Escancara, em momentos de grande intensidade, como cada um de nós nos deixamos afetar. Em alegria, tristeza, temor, esperança, desejo. Convidando-nos sempre a nos entender melhor e, assim, a nos libertar das garras de paixões tristes que arruínam a vida.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte da Notícia

Leave A Comment