quinta-feira 18, junho, 2026 - 3:12

Esporte

Esportes radicais: morte em SP exige mais fiscalização – 17/06/2026 – É Logo Ali

É muito legal contar as façanhas de montanhistas, trilheiros, voadores e praticantes da

image_printImprimir


É muito legal contar as façanhas de montanhistas, trilheiros, voadores e praticantes das mais diversas modalidades de esportes de aventura. Era sobre algo assim, algo legal, que eu tinha me programado para escrever neste cantinho que me cabe semanalmente. Só que não é nada legal passar batido por mais uma morte como a da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, arremessada de uma ponte abandonada na região de Limeira, no interior de São Paulo, e morta aos 21 anos pela irresponsabilidade, a imperícia e/ou a desatenção de uns cidadãos que vendiam a promessa de adrenalina a 40 metros de altura, e que esqueceram do mais básico do básico: prender a corda ao corpo da menina antes de jogá-la ao vazio.

Assuntos legais que me perdoem, mas não vai ser esta coluna que vai ignorar a morte de Maria Eduarda.

Porque o pior é que casos absurdos como o de Maria Eduarda acontecem praticamente todo fim de semana, com resultados que vão de simples escoriações a ferimentos graves e, sim, mortes. A temporada de montanhismo provoca crises de ansiedade em cada batalhão de bombeiros das imediações das belas paisagens que muitos querem desfrutar e que, infelizmente, tantos enfrentam sem a menor informação ou a mínima e devidíssima orientação. Não há um final de semana desta épocado ano em que não ocorra ao menos um resgate em alguma bela vista que, de sonho, vira pesadelo ou estatística.

Alguns desses casos ganham as redes sociais e, com elas, a mídia, principalmente se geraram imagens impressionantes como o voo fatal de Maria Eduarda. À sua divulgação, despertam-se debates inflamados e, em geral, desinformados que começam no imoral “ela procurou” e vão até a mais imoral ainda divulgação de fotos do corpo acidentado —sim, até isso a gente recebe por aqui, para desespero dos estômagos mais sensíveis. A morbidez humana não tem limites.

Muitos dos casos, porém, e dá pra dizer que é a maioria das estatísticas, por ninguém ter se lembrado ou tido tempo de filmar ou fotografar o momento do evento, mal alcançam os grupos de WhatsApp e Telegram especializados nos esportes de aventura. Neles, também, as posições se dividem: para muitos, a divulgação desse tipo de imagem compromete o negócio de todo o segmento de, em geral, pequenos empresários. A maioria, infelizmente, informais e exercendo suas atividades ao arrepio das normas, que vivem de vender justamente o gostinho da ousadia, do frio na espinha, da imagem colorida que vai subir, claro, às tais redes.

É como se, varrendo a sujeira para debaixo do tapete do olhar público, a lambança pudesse seguir livre e solta para atrapar o próximo incauto.

Mas, atenção: é importante deixar claro que nenhum leigo é obrigado a saber de todos os riscos, nem dos procedimentos que devem ser tomados, muito menos checar o CNPJ e a capivara dos que estão contratando porque viram no perfil do amiguinho ou, pior, do influencer de plantão, belas imagens de quem deu sorte. A ponte não estava escondida em algum ponto remoto da floresta amazônica, mas numa região densamente habitada do interior do estado mais rico da União. À vista de quem quisesse enxergar os muitos clientes que buscavam irregularmente a atividade a cada final de semana.

Se Maria Eduarda caiu de uma ponte que não devia estar lá, por levar do nada a lugar nenhum; se a ponte é do governo federal, municipal ou venusiano; se os que cometeram o ato bárbaro eram mais ou menos experientes, mais ou menos habilitados ou irresponsáveis aventureiros que assumiram o risco de matar; se já tinham vendido o serviço para dezenas de pessoas que viveram para contar —nada disso elimina o fator básico que está presente em praticamente todas as ocorrências dos esportes de aventura: de nada adianta dizer que algo não pode ser feito assim ou assado, que aqui ou acolá não pode isto ou aquilo, se não houver uma fiscalização rigorosa que iniba ao máximo o que, em si, sempre vai ser uma atividade de risco, e é bom que isso fique claro.

Não se trata, entretanto, de buscar a solução simplória de culpar o sofá pela traição e jogar o móvel pela janela, defendendo a proibição do rope jump, ou do base jump, ou de qualquer outro esporte de aventura, que gera renda e atrai um turista diferenciado. Se trata, isso sim, de assegurar que alguém (e não vai ser o cliente) vai se certificar de que quem oferece algum serviço está minimamente legalizado, habilitado e com capacidade de comprovar que segue todos os procedimentos de segurança que as normas preveem. Achar que dizer a jornalistas que está proibindo a prática disto ou daquilo, aqui ou acolá, e que com isso vai evitar novos problemas é tapar o sol com uma peneira daquelas bem grossas e tentar cegar a opinião pública. Pior: permitir que outras Marias Eduardas virem manchetes sensacionalistas.

À família, meus sentimentos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte da Notícia

Leave A Comment