Em 21 de junho de 1998, antes de a bola rolar no estádio de Gerland, em Lyon, jogadores iranianos entraram em campo carregando flores brancas para os atletas da seleção americana, num gesto que, naquele momento, colocava a partida pela segunda rodada da Copa do Mundo em um cenário muito além do futebol.
Vinte e oito anos depois, a seleção iraniana jogará o Mundial novamente cercada pelo mesmo peso político, desta vez, porém, em condições ainda mais sensíveis, com a competição sediada por Estados Unidos, Canadá e México.
Classificado para o seu sétimo Mundial, o Irã confirmou que disputará parte de sua campanha em solo americano, mas cobrou dos anfitriões garantias formais sobre emissão de vistos, segurança da delegação e respeito à bandeira e ao hino nacional do país.
A exigência veio semanas depois de o Canadá dificultar a entrada do presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, após autoridades migratórias apontarem vínculos do dirigente com a Guarda Revolucionária, classificada como organização terrorista por EUA e Canadá.
A incerteza ganhou força em fevereiro, quando a escalada militar no Oriente Médio, após ataques conduzidos por EUA e Israel, passou a levantar dúvidas sobre a presença iraniana no torneio.
Na véspera daquele primeiro confronto entre os dois países em Copas, como enviado especial à França, Clóvis Rossi escreveu na Folha que “futebol poderia ser a chance para paz”, ao narrar a tentativa de aproximação entre Washington e Teerã diante das câmeras do mundo.
A leitura ecoou até a Casa Branca. Dias antes do confronto, o então presidente Bill Clinton comprou a ideia ao dizer que o jogo entre as duas seleções “pode ajudar a melhorar o relacionamento entre os dois países”.
Quase três décadas depois, a possibilidade de um novo encontro entre iranianos e americanos —desta vez apenas em eventual mata-mata— mostra que aquela chance acabou desperdiçada.
Para a historiadora Kristina Spohr, professora de história internacional na London School of Economics, poucos confrontos esportivos preservaram por tanto tempo o mesmo peso político quanto EUA e Irã.
“O que torna esse confronto tão singular é que ele nunca pertence apenas ao presente. Cada novo encontro entre EUA e Irã reativa camadas de memória diplomática, conflito regional e disputa simbólica acumuladas ao longo de décadas”, explicou Kristina à Folha.
Naquele domingo em Lyon, menos de duas décadas após a Revolução Islâmica romper relações diplomáticas entre os dois países, o jogo parecia carregar muito mais do que três pontos.
“Em 1998, o simbolismo estava concentrado dentro do estádio. Em 2026, ele começa muito antes disso, porque território, mobilidade e acesso também passaram a fazer parte da mensagem política”, acrescentou a professora.
Aquela história, porém, não terminou em Lyon, com a vitória iraniana por 2 a 1, e voltou a ganhar novos capítulos no Qatar, em 2022, quando bandeiras, protestos e redes sociais reacenderam o atrito entre os dois lados.
Na véspera do confronto no último Mundial –vencido pelos americanos por 1 a 0–, a U.S. Soccer (a Federação de Futebol dos Estados Unidos) publicou em suas redes sociais a bandeira iraniana sem o emblema da República Islâmica, dizendo apoiar os protestos que tomavam o país após a morte de Mahsa Amini. Teerã acusou os americanos de desrespeito aos símbolos nacionais, levou o caso à Fifa, abrindo uma nova crise diplomática durante a competição.
Agora, mais do que a possibilidade de uma provocação, os EUA estarão com quase o comando total da competição, definindo o controle das fronteiras, dos vistos, dos aeroportos e da logística do torneio.
A seleção iraniana abrirá sua campanha contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, enfrentará a Bélgica, novamente na Califórnia, e encerrará a primeira fase diante do Egito, em Seattle.
Nicholas Cull, historiador britânico e um dos principais especialistas mundiais em diplomacia pública, soft power e comunicação internacional, afirma que, quando o país anfitrião também é parte do conflito político, o esporte deixa de ser apenas competição e passa a funcionar como extensão visível da diplomacia pública.
“O esporte não elimina conflitos geopolíticos. O que ele faz é deslocá-los para um espaço em que símbolos, gestos e percepção pública passam a importar tanto quanto a diplomacia formal. Em 2026, no caso de Estados Unidos e Irã, isso começa antes mesmo de a bola rolar”, disse Cull.
Nos meses que antecederam o torneio, a simples presença iraniana em solo americano deixou de ser hipótese esportiva e passou a ser tema de declarações da Casa Branca, do Departamento de Estado e de autoridades migratórias.
Em um dos questionamentos mais recentes ao presidente Donald Trump, o republicano terceirizou sua posição para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que havia assegurado a presença iraniana no Mundial durante o último congresso da entidade.
“Se o Gianni disse isso, para mim tudo bem… deixem que joguem”, afirmou Trump.
A abertura presidencial, porém, veio acompanhada de um recado mais duro do Departamento de Estado. Dias antes, o secretário Marco Rubio afirmou que jogadores e membros da comissão técnica seriam bem-vindos, mas citou que integrantes da delegação com vínculos com a Guarda Revolucionária poderiam ter a entrada negada no país.
Do outro lado, Teerã respondeu transformando a participação na Copa em assunto de soberania nacional, com exigências públicas sobre tratamento institucional, segurança da delegação e emissão de vistos.
“Definitivamente participaremos da Copa do Mundo de 2026, mas os anfitriões devem levar em conta nossas preocupações”, afirmou a federação iraniana em seu site. “Participaremos do torneio, mas sem nenhum recuo em relação às nossas crenças, cultura e convicções.”
Para a pesquisadora brasileira Vitória Baldin, o futebol raramente cria crises geopolíticas, mas costuma amplificar disputas que já estão em curso muito antes do apito inicial.
“Grandes eventos esportivos costumam funcionar menos como origem de crises e mais como vitrines de conflitos que governos, sociedades e atletas já carregam para dentro do torneio”, afirmou Vitória.
Na avaliação do professor Simon Chadwick, o Mundial de 2026 dirá menos sobre futebol e mais sobre como grandes potências usam eventos esportivos para projetar liderança, legitimidade e influência global.
“Em 1998, Estados Unidos e Irã se encontraram em campo. Em 2026, eles se encontram dentro de uma arquitetura de poder controlada pelos americanos, e isso muda completamente o significado político desse reencontro.”
Se em Lyon o gesto que marcou o encontro entre iranianos e americanos veio antes do apito, com flores trocadas diante das câmeras, em 2026 a primeira disputa poderá começar bem antes disso, nos consulados, nos aeroportos e nas fronteiras dos Estados Unidos.

