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Esporte

Craques de antigamente eram melhores? – 10/05/2026 – Esporte

Devo ser dos poucos boleiros que não têm uma resposta peremptória para a pergunta do t

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Devo ser dos poucos boleiros que não têm uma resposta peremptória para a pergunta do título. O futebol vive dividido entre presentistas e passadistas. No limite, os dois blocos produzem pérolas como “qualquer um do Bangu de 1966 seria titular na seleção hoje” ou “Pelé fez mil e tantos gols porque só jogou contra pedreiros”.

É cansativo, porque essas comparações costumam ignorar quais são as diferenças entre os jogos de 1974 e de 2024, quais talentos eram mais valorizados em 1974 e hoje, quais torneios representavam o ápice em cada região ou país em 1974 e hoje.

Em um irritante meme de internet, pergunta-se quem é melhor, cada titular da seleção atual ou cada titular de uma virtual seleção dos não convocados de 2002. A conclusão se repete com tediosa previsibilidade: Romário, Julio Cesar, Djalminha, Alex, Amoroso, Serginho e outros seriam titulares da Canarinho hoje em suas respectivas posições.

O objetivo deste artigo não é argumentar que isso é falso, mas apenas apontar que tem sido assim nos últimos 55 anos. É notável que tão pouca gente observe este traço visível do discurso sobre o futebol desde a aposentadoria de Pelé da seleção: o discurso dominante sobre o futebol brasileiro no último meio século foi o de que os craques do presente são inferiores aos do passado.

Imagine um boleiro de 1978 (que, portanto, não sabia tudo o que Zico conquistaria depois) a quem fosse apresentada uma lista dos não convocados de 1966. Ele concluiria que Carlos Alberto Torres era melhor que Nelinho, que Vavá colocaria Reinaldo no banco e que aquele tal de Zico, que em três anos não havia ganhado nem Campeonato Carioca, não teria lugar em um time que contasse com Ademir da Guia.

A falácia dessas comparações não vem apenas da inutilidade de cotejar jogadores de diferentes épocas sem considerar as mudanças no jogo. A falácia adicional é que os não convocados de 2002 são avaliados com base na totalidade da memória afetiva que deixaram no torcedor, considerando tudo o que fizeram. Eles jamais são avaliados só pela forma em que se encontravam em 2002.

Quem consultar o acervo completo da Revista Placar ou procurar as mesas-redondas preservadas verá que a geração de 1974, uma das mais talentosas da história (com Rivellino, Jairzinho, Caju, Marinho Chagas, Ademir da Guia, Dirceu Lopes e outros no auge), era sempre comparada com o passado a partir do axioma “o Brasil jamais terá jogadores como Pelé e Garrincha de novo”.

Enquanto Rivellino e Caju se aposentavam e se consolidava a geração de Zico e Falcão, era senso comum dizer que eles jamais chegariam a Jairzinho. Isso é tão visível na pesquisa de arquivo como esquecido hoje em dia, como esquecido está o fato de que da geração posterior, de Romário e Bebeto, era dito que ela jamais chegaria a Zico.

Você pode imaginar o tempo de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho como era dourada, mas basta observar o discurso dominante no Brasil entre a Copa América de 2001 e a Copa de 2002 para saber que aquela era não se percebia assim.

O que tudo isso quer dizer? Sobre o futebol realmente jogado, nada. Para tal, há que se assistir aos jogos. Mas diz tudo sobre qual tem sido o jeito dominante de se ver o jogo no Brasil pós-Pelé e sobre quão saudável seria ver com ceticismo a cantilena de que “Vinicius Junior ou Raphinha nem engraxaria as chuteiras de X ou Y do passado”.



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