Atualmente, um dos assuntos mais comentados no Brasil é o fim da escala 6×1. A proposta prevê a mudança do modelo atual, com seis dias de trabalho e um de descanso, para uma rotina com dois dias de folga por semana. A discussão também levanta outra questão: o que uma rotina com pouco ou nenhum descanso faz com o corpo e a mente?
A rotina de trabalhar seis dias seguidos com apenas um de folga, comum no setor de serviços, tem sido alvo de questionamentos não apenas no campo trabalhista, mas também no da saúde. Médicos ouvidos pelo Metrópoles apontam que a falta de pausas adequadas pode gerar uma série de impactos que vão além do cansaço.
Segundo o psiquiatra André Botelho, do Sírio-Libanês, em Brasília, o organismo entra em um estado constante de alerta quando não há tempo suficiente para recuperação.
“Se a pessoa trabalha muitos dias seguidos sem recuperação adequada, o corpo permanece em modo de alerta e isso aumenta a ativação do sistema nervoso simpático e do eixo do estresse, com liberação mais frequente de cortisol e adrenalina”, explica.
Embora esse mecanismo ajude a manter o desempenho no curto prazo, o efeito acumulado pode ser prejudicial. “A longo prazo, isso gera piora do sono, irritabilidade, queda de concentração, maior fadiga, aumento de pressão arterial e maior vulnerabilidade a adoecimento”, diz.
Dados de organismos internacionais reforçam essa preocupação. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que jornadas acima de 55 horas semanais estão associadas a maior risco de AVC e doenças cardíacas.
Impacto no sono e no ritmo biológico
A falta de descanso também interfere diretamente no funcionamento do sono. O psiquiatra Luiz Scocca, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Associação Americana de Psiquiatria (APA), destaca que o corpo perde referências importantes para regular o ciclo natural de descanso.
“Sem pausas adequadas, o cérebro perde referência do ciclo sono-vigília. O sono fica mais superficial, fragmentado e muito menos restaurador. A pessoa até dorme, mas não se recupera. Com o tempo, isso pode evoluir para insônia, sonolência durante o dia e uma espécie de jet lag crônico”, afirma.
Esse desequilíbrio afeta não apenas o descanso, mas também o desempenho cognitivo e o equilíbrio emocional.
Relação com estresse e burnout
A exposição prolongada a jornadas intensas também está associada ao desenvolvimento de burnout, um quadro de esgotamento relacionado ao trabalho. “Burnout não é simplesmente cansaço, é um estado de exaustão com esgotamento emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa eficácia”, esclarece Botelho.
Segundo ele, estudos mostram que o risco cresce conforme aumentam as horas trabalhadas. “Em comparação com 40 horas semanais, o risco de burnout dobra acima de 60 horas, triplica acima de 74 e quadruplica acima de 84 horas”, aponta.
O psiquiatra Wimer Bottura, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), acrescenta que, embora a jornada intensa seja um fator importante, ela não atua sozinha.
“O trabalho é o fator desencadeante, mas a causa também envolve a forma como a pessoa se relaciona com essas demandas”, diz. O médico aponta que características pessoais e condições de vida influenciam a forma como cada indivíduo lida com a sobrecarga.
Efeitos no corpo
O corpo também sofre com a falta de descanso. No sistema cardiovascular, há aumento de arritmias, de eventos isquêmicos, de infartos e risco de hipertensão. A imunidade também pode ser comprometida.
“A pessoa fica mais suscetível a infecções e com maior inflamação no organismo, o que está ligado a diversas doenças crônicas”, explica Scocca. Além disso, a fadiga se torna persistente e não melhora com repouso simples. “É um desequilíbrio de toda a fisiologia”, diz o médico.
Descanso não é só quantidade
Apesar do debate sobre redução da jornada, os especialistas destacam que o descanso não deve ser analisado apenas pelo número de horas livres. Segundo Bottura, a questão varia muito entre cada pessoa e a atividade que ela exerce. “A solução não está só em quantas horas se descansa, mas em como esse descanso acontece”, pontua.
Para os médicos, o debate sobre modelos de trabalho precisa considerar não apenas produtividade, mas também os limites do corpo humano. Jornadas prolongadas sem recuperação adequada tendem a cobrar um preço que, muitas vezes, aparece de forma gradual.

