O Brasil registrou, em 2025, o maior número de acidentes e mortes no trabalho da série histórica monitorada pela Secretaria de Inspeção do Trabalho. Foram contabilizados mais de 806 mil acidentes e 3.644 mortes somente no ano passado, segundo um estudo técnico divulgado nesta terça-feira (28) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
O levantamento observa um aumento significativo dos acidentes de trabalho pós-pandemia, como detalha o diretor do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho, Alexandre Scarpelli:
“A análise da série histórica revela um ponto crítico em 2020, durante a pandemia, quando houve queda nos registros. Mas essa redução não resultou de ambientes mais seguros. Foi consequência da retração econômica e do afastamento de milhões de pessoas do trabalho presencial. O que nos preocupa é o que veio depois. A partir de 2021, os acidentes e as mortes voltaram a crescer de forma consistente.”
Atividades de maior risco
Durante a apresentação do estudo, feita em alusão ao Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado nesta terça-feira, Alexandre Scarpelli detalhou as atividades de maior risco no país:
“Hospitais e serviços de urgência lideram o número de acidentes, revelando um alto custo humano de cuidar da vida alheia em ambientes frequentemente sobrecarregados e precarizados. O transporte rodoviário de carga aparece de forma isolada como o setor que mais mata no país. Foram 2,6 mil vidas perdidas em dez anos. E quando olhamos para ocupações, o dado é ainda mais contundente. O trabalhador que mais morre no país é o motorista de caminhão: mais de quatro mil mortes em uma década, mais de uma vida perdida por dia.”
A construção civil, a vigilância privada e o transporte de produtos perigosos completam o cenário de alta letalidade no trabalho. Entre as ocupações, os técnicos de enfermagem registram o maior número de acidentes.
Dados consolidados de 2016 a 2025
Os dados consolidados pelo governo federal também trazem um panorama dos acidentes de trabalho entre 2016 e 2025. A última década reuniu 6,4 milhões de acidentes e 27.486 óbitos, além de mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos. Nesse período houve aumento absoluto nos registros oficiais e redução na CAT, Comunicação de Acidente de Trabalho. A taxa CAT caiu de 29,39, em 2016, para 17,94, em 2025, por 100 mil trabalhadores. Segundo o MTE, esses números indicam que a formalização do mercado de trabalho não foi acompanhada por melhora proporcional nas condições de segurança.
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O diretor do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho avalia que o país precisa avançar nas políticas de prevenção:
“Os acidentes e doenças não são fatalidades naturais. Eles são fenômenos sociais, econômicos e organizacionais e, portanto, passíveis de prevenção. Não existe crescimento que justifique a perda de vidas. Não existe produtividade que compense corpos mutilados. Não existe trabalho digno quando ele adoece ou mata.
Os acidentes típicos representam cerca de 65% do total acumulado, seguidos pelos acidentes de trajeto, 20%, e pelas doenças ocupacionais, aproximadamente 3%.

