Das milhares ou dezenas de milhares de postagens sobre a quebra do recorde de 2 horas na maratona neste domingo (26) em Londres pelo queniano Sabastian Sawe e pelo etíope estreante nos 42,2km Yomif Kejelcha, uma das mais sensatas foi a do corredor amador e ex-esquiador olímpico brasileiro Lelo Apovian.
Como corredor, Lelo tem um recorde pessoal que uma fração irrisória dos brasileiros que não correm profissionalmente podem almejar: 2h37min58seg em Berlim.
Lelo disse que, além da pouca experiência dos vencedores, o que mais o impressionou foi a umidade durante a corrida, 90%, uma taxa amazônica, que dificulta a transpiração e, portanto, a performance dos maratonistas.
A sua conclusão é que “esse recorde vai durar pouco”.
O ex-esquiador não citou o “equipamento” que ambos levavam aos pés, o tênis Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas, que também ultrapassou uma barreira histórica, a do peso, menos de 100 gramas. Sawe e Kejelcha destacaram em entrevistas logo após a corrida a leveza do produto, e o queniano também sublinhou sua “estabilidade”.
É difícil calcular o impacto em termos de aumento de receita de vendas que essa quebra histórica da marca das 2 horas irá significar para a Adidas, mas ele certamente será menos importante do que o ganho intangível que a marca alemã leva de brinde com os recordes.
Afinal, quem começou obsessivamente a tentar quebrar a marca foi a Nike, e chegou mesmo a fazê-lo em 2019 com o tênis que daria origem à família VaporFly, mas num evento controlado, oficioso, com o também queniano Eliud Kipchoge correndo ladeado por lebres. Ele tinha, supostamente, as condições ideais para ser “sub2”.
Sete anos são uma eternidade, e nesse tempo a Nike trocou de CEO, promoveu downsizings, pareceu sair do jogo, mas o tempo não parou, e o espaço foi ocupado não apenas pela Adidas como por players menos tradicionais como a On e a Under Armour.
Passo mais tempo a falar do “hardware” do que dos próprios atletas, pois me parece que a chave está mesmo nos pés. Se um sujeito como Kejelcha, estreante na maratona —ainda que recordista mundial da meia—, é capaz de quebrar um recorde buscado havia pelo menos sete anos, é de se supor que no leste africano a fonte dificilmente vai secar.
Por outro lado, num mercado global que pode faturar US$ 104 bi em 2030, segundo a consultoria Euromonitor, é de se esperar novos saltos de tecnologia em busca de (ainda mais) leveza e de responsividade.
Neste domingo, Londres ainda pode ter batido o recorde de concluintes de maratona, acima dos 60 mil; essa sim era a quebra de recorde esperada do dia. Com ela, a New Balance, marca esportiva que patrocina o evento, também leva seu prêmio de consolação numa manhã em que a Adidas fez barba, cabelo e bigode.

