sábado 18, abril, 2026 - 3:44

Esporte

Política se mistura, mas não deve dominar o esporte – 18/04/2026 – Marina Izidro

Nesta semana, eu e dois amigos jornalistas esportivos começamos a debater sobre a seleç

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Nesta semana, eu e dois amigos jornalistas esportivos começamos a debater sobre a seleção de futebol do Irã.

Um deles defendeu que os jogadores deveriam boicotar a Copa do Mundo, que começa em menos de dois meses, em 11 de junho, nos Estados Unidos, Canadá e México. Ele considera que seria um gesto simbólico importante contra Donald Trump.

Eu, como sempre nesses casos, disse que eles têm que ir. A história nos mostra que boicotes esportivos não funcionam no sentido de acabar com uma guerra —políticos não estão nem aí— e só prejudicam quem não tem nada a ver com isso: os atletas.

Deixando ideologias e posições políticas de lado, vamos à vida real. Em primeiro lugar: o Irã se classificou para a Copa de forma legítima, em campo. Os jogadores merecem ir. Não é justo que paguem pelas ações de seus governantes. Serão questionados sobre a guerra em entrevistas, mas um atleta profissional precisa saber lidar com esse tipo de pressão. Se for possível, falar sobre tópicos incômodos ou sensíveis (obviamente, para os iranianos, se posicionar publicamente contra a guerra fica mais difícil).

Segundo: é obrigação do anfitrião de um torneio garantir que os participantes visitem seu país de forma segura, goste deles ou não. A fala de Trump, de que a seleção do Irã não deveria ir ao Mundial pela própria segurança deles, é inadmissível. Já o Irã, precisa aceitar o calendário. Pediu para não jogar em solo norte-americano e trocar suas partidas para os outros países-sede, o que é operacionalmente impossível. E vamos a mais um choque de realidade: por mais que alguns digam que a Fifa deveria tirar o torneio das mãos dos Estados Unidos, a chance de isso acontecer é zero.

Por fim: é dever de entidades esportivas saber lidar com questões geopolíticas. Em vez de o presidente da Fifa, Gianni Infantino, fingir que nada acontece, com o discurso raso de que o esporte tem o poder de unir o mundo, blá-blá-blá, deveria admitir que conflitos existem, mostrar que os organizadores se preocupam e estão no controle da situação. Dizer “estamos cientes e tomando todas as medidas para que os jogadores estejam seguros, possam focar em performance” etc.

Coincidentemente, horas depois da conversa com meus amigos, Infantino confirmou que a seleção iraniana estará no Mundial e disse outra frase batida: “O esporte não deveria se misturar com política”.

Cada vez mais, a experiência na cobertura de grandes eventos tem me mostrado que o melhor caminho é o do meio. O esporte não pode estar em uma bolha, alheio ao que se passa no mundo. É inevitável que se mescle com política e é inocente pensar o contrário. Acontece desde sempre —vide os Jogos Olímpicos “de Hitler”, em Berlim, em 1936. A diferença é que hoje há internet, redes sociais, a informação circula mais rapidamente.

Ao mesmo tempo, política não pode ser tudo, dominar a qualquer custo, privar um atleta do momento que talvez seja o mais importante da carreira. Se a guerra for o único critério para um país boicotar um torneio ou organizadores banirem uma nação, com a quantidade de conflitos hoje e em um mundo tão polarizado, não sobraria nenhuma grande competição.

Às vezes, precisamos ver a vida e o esporte como realmente são —não como gostaríamos que fossem.


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