Não houve estardalhaço na mídia esportiva, mas deveria ter havido. O futebol perdeu na terça-feira (7) um de seus mais significativos nomes. Natural de Bucareste (Romênia), Mircea Lucescu morreu aos 80 anos, de problemas cardíacos.
Dentre os que fizeram fama, ninguém no esporte mais popular do planeta construiu carreira tão longa, somando-se a de jogador profissional e a de técnico, como Lucescu: 63 anos, ininterruptamente.
De 1963, quando começou a atuar pelo Dínamo de sua cidade natal, até este 2026, à frente da seleção de seu país, ele esteve, entra ano e sai ano, ligado cotidianamente ao futebol, seja chutando uma bola, seja entregando-a para seus comandados a chutarem.
Acredito que a maioria dos que leem estas linhas jamais ouviu falar dele. Há uma explicação. Lucescu, seja como atleta, seja como técnico, não brilhou nos campeonatos europeus mais famosos.
Ponta-direita de qualidade em uma época em que leste e oeste da Europa não se bicavam politicamente e o intercâmbio de pé de obra era raro, não pôde atuar nos principais centros do continente.
Jamais saiu da Romênia, vestindo a camisa amarela da seleção por 14 anos e a capitaneando na Copa do Mundo de 1970, no México. Atuou na derrota por 3 a 2 para o Brasil de Pelé e companhia que faturaria a Jules Rimet dias depois.
Com a prancheta, a qual passou a segurar em 1979 mesmo sem ter ainda largado as chuteiras (parou em 1982), teve oportunidades no futebol italiano na década de 1990. Sua maior chance de se expor em uma vitrine reluzente foi na Inter de Milão, com astros como Ronaldo Fenômeno e Roberto Baggio.
O desempenho inconstante impediu que completasse a temporada de 1998/1999. Saiu e a partir daí firmou-se, com grande êxito, na periferia europeia: Turquia, Rússia e, primordialmente, Ucrânia. Reinou por lá e colocou no mapa, contando quase sempre com muitos brasileiros no elenco, o Shakhtar Donetsk.
Dizia-se um apaixonado pelo futebol do Brasil, aprendeu a falar português e mantinha amizade com ex-comandados, como Luiz Adriano (atacante) e Fernandinho (volante).
Em 13 anos de Shakhtar, foram 22 títulos: 21 nacionais e um internacional, a Copa da Uefa em 2009, na conquista mais relevante de um clube ucraniano.
Lucescu ainda acumulou outros títulos na Ucrânia (Dínamo de Kiev), na Turquia (Galatasaray e Besiktas), na Rússia (Zenit) e na Romênia (Dínamo e Rapid). Ao todo como técnico, são 38 (média de 0,8 por ano). Somando os ganhos quando jogador, o número de troféus chega a 47.
O nível de respeito atingido por Lucescu o coloca no patamar do compatriota Valeriy Lobanovskyi (1939-2002), idealizador do “futebol científico” e célebre pelas conquistas com o Dínamo de Kiev por três décadas (1970, 1980 e 1990).
Mas são os mais de 60 anos de carreira no campo ou à beira dele que tornam Lucescu tão sênior como lendário. Basta comparar.
Entre os nomes incensados, no exterior os que mais se aproximam (56 anos) são Alex Ferguson (escocês), 84, e Giovanni Trapattoni (italiano), 87. No Brasil, a maior sequência (58 anos, de 1966 a 2024) pertence a Luiz Felipe Scolari, 77. Todos aposentados.
Na ativa, Carlo Ancelotti, 66, treinador da seleção brasileira, acumula 50 anos. Será que terá saúde e disposição para ultrapassar Lucescu?

