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Reduto dos cartéis mexicanos se prepara para sediar Copa – 08/04/2026 – Esporte

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Três Cybertrucks da Tesla estão patrulhando as ruas do centro de Guadalajara neste verão. Os veículos são um esforço chamativo da polícia estadual de Jalisco para projetar controle em uma cidade que é tanto sede da Copa do Mundo de 2026 quanto lar de um dos cartéis criminosos mais poderosos do México.

Eventos recentes minaram esses esforços. Em fevereiro, o CJNG (Cartel Jalisco Nueva Generación) transformou a capital estadual de 4 milhões de habitantes no epicentro de 48 horas de violentos distúrbios após os militares matarem seu líder, Nemesio “El Mencho” Oseguera.

Enquanto imagens de carros em chamas e uma cidade em lockdown eram transmitidas ao redor do mundo, o México correu para acalmar as dúvidas sobre sua capacidade de sediar a Copa do Mundo. A presidente Claudia Sheinbaum apresentou um plano para mobilizar 99 mil agentes de segurança federais e privados nas cidades-sede de Guadalajara, Monterrey e Cidade do México, além de outras áreas.

“É seguro vir ao México”, disse Sheinbaum no mês passado, destacando “o grande trabalho realizado” em coordenação com os outros países-sede da Copa do Mundo, Canadá e Estados Unidos.

Mas os interesses do cartel podem se mostrar tão importantes para a segurança quanto os esforços do governo, segundo uma dúzia de autoridades locais, estaduais e especialistas em segurança.

O CJNG tem muito a ganhar com o impulso econômico regional de um torneio bem-sucedido em Guadalajara —cidade semelhante à sua sede administrativa— e muito a perder ao atrair a atenção das autoridades.

“A cidade é segura porque esses caras investem todo o seu dinheiro aqui, e podem lucrar ainda mais”, disse um funcionário estadual que não estava autorizado a falar oficialmente. “Eles não querem uma guerra aqui.”

Os enormes lucros obtidos em outros lugares com o tráfico de drogas e outras atividades são lavados em Guadalajara, disseram especialistas, ajudando a impulsionar um boom imobiliário. Uma onda de arranha-céus reluzentes surgiu, alguns dos quais permanecem vazios. A cidade arborizada também ostenta luxuosos shoppings a céu aberto e uma vida noturna agitada.

Autoridades e especialistas não descartaram a possibilidade de violência esporádica em Jalisco durante a Copa do Mundo. Mas poucos acreditam que o cartel atacaria deliberadamente turistas ou um grande evento sob o olhar atento das autoridades federais mexicanas e dos Estados Unidos, um dos países-sede, que ameaçaram enviar tropas ao México para combater os cartéis.

“O crime organizado mexicano aprendeu lições com a história, e uma das maiores é que não se mexe com os gringos”, disse Ulises Vargas, professor da Universidade de Guadalajara, observando que os cartéis esperariam uma resposta “esmagadora” dos EUA a “qualquer tipo de violência sistemática” neste verão.

Arturo Fontes, ex-agente do FBI que trabalhou duas vezes em Guadalajara, concordou. “Não acho que os cartéis sejam tão estúpidos. Acredito que as coisas ficarão relativamente seguras durante a Copa do Mundo, e que eles voltarão a agir depois.”

Guadalajara sedia regularmente conferências globais, incluindo a segunda maior feira de livros do mundo.

No entanto, as ruas estão cobertas de cartazes com fotos de algumas das mais de 15 mil pessoas desaparecidas em Jalisco —o maior número entre os 32 estados do México. Valas clandestinas contendo os restos mortais de dezenas de pessoas foram encontradas no último ano a menos de 20 km do estádio que sediará quatro jogos da Copa do Mundo.

“A cidade desfruta do que chamamos de ‘paz criminosa’”, disse Carlos Mercado, ex-chefe de polícia de Guadalajara que agora trabalha com relações com vítimas no governo estadual, descrevendo o controle territorial do cartel sobre grandes áreas da cidade, que, segundo ele, foi “normalizado” por muitos funcionários “seja por medo ou cumplicidade”.

O controle do cartel, que se fortaleceu na última década, manteve crimes menores, como assaltos, relativamente sob controle, acrescentou Mercado. “Se alguém sai da linha, eles o eliminam para evitar chamar muita atenção.”

A taxa de homicídios em Guadalajara é de cerca de 16 por 100 mil habitantes, alta para os padrões internacionais, mas moderada para o México.

Os ataques coordenados após a morte de El Mencho, que levaram ao fechamento de comércios e escolas por dois dias, foram extremamente incomuns.

“Eles fizeram seu protesto e agora está tudo bem”, disse Alejandro, motorista de Uber em tempo integral que preferiu não revelar seu sobrenome por motivos de segurança. “Eles controlam este lugar e não querem problemas.”

O setor turístico de Guadalajara espera que os visitantes também estejam tranquilos.

A ocupação hoteleira na capital do estado se recuperou em grande parte da queda inicial de 30% após os ataques, disse a secretária de turismo de Jalisco, Michelle Fridman, para 10% abaixo dos níveis do início de fevereiro. “Nenhum turista esteve envolvido nesses eventos”, acrescentou ela. “Oferecemos condições de segurança semelhantes às de qualquer outro grande destino turístico.”

As imagens geradas por inteligência artificial que viralizaram durante os distúrbios de fevereiro, incluindo as de aviões em chamas, exageraram significativamente a escala da violência, acrescentou Fridman.

José Juan González, dono de um hotel em Guadalajara, disse que alguns hoteleiros estavam se preparando para oferecer pequenos descontos nas tarifas previamente planejadas para a Copa do Mundo, a fim de atrair clientes. “Tínhamos grandes expectativas em relação à Copa do Mundo e a esperança é que possamos recuperá-las.”

Duas partidas das eliminatórias em Guadalajara, no final de março, transcorreram sem problemas. O primeiro dos quatro jogos do torneio acontecerá em 11 de junho, entre Coreia do Sul e República Tcheca.

Os 3 milhões de turistas esperados para visitar Guadalajara neste verão provavelmente serão clientes, e não vítimas, do CJNG, disseram analistas de segurança. Cocaína e maconha são vendidas rotineiramente pelo cartel em bares da cidade, enquanto álcool, tabaco e cigarros eletrônicos ilícitos aparecem em lojas.

O grupo também controla redes de prostituição e tem como alvo direto estrangeiros em esquemas de fraude envolvendo resorts.

“Todas essas oportunidades se expandirão durante a Copa do Mundo”, disse Fernando Jiménez Sánchez, pesquisador de segurança baseado em Guadalajara. “Serão algumas semanas muito boas para os negócios criminosos.”

Apesar da expectativa generalizada de uma Copa do Mundo segura, a morte de El Mencho aumentou o risco de violência em Jalisco.

Analistas alertam que mudanças na hierarquia do CJNG podem levar à fragmentação e a conflitos internos, ou a ataques de vingança contra as forças de segurança.

A remoção de um líder do cartel de Sinaloa em 2024 foi seguida, cerca de 40 dias depois, pelo início de uma guerra total entre facções rivais.

É um cenário preocupante para os moradores locais. Os carros-fortes da polícia e a presença policial concentrada em pontos turísticos e hotéis pouco contribuíram para aumentar a sensação de segurança, disse Luis Xavier Andrade, membro da associação de moradores do bairro Colonia Americana.

“A polícia tem uma clara preferência por proteger os turistas”, afirmou. “As pessoas vêm para se divertir, o que às vezes inclui drogas, e o bairro terá que lidar com a instabilidade.”



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