Na Comunidade da Missão, zona rural de Tefé, cidade no interior do Amazonas, uma associação de mulheres mantém viva a tradição de produção orgânica de cacau. O trabalho dessas agricultoras em áreas de sítios, roçados ou quintais, integrados à Floresta Amazônica, segue os saberes ancestrais que remontam à fundação da comunidade, no fim do século XIX, por padres espiritanos holandeses.
As pioneiras da comunidade criaram o chamado “Clube de Mães”, uma rede de apoio dedicada à divisão de tarefas, à educação formal e à criação de quintais produtivos para garantir alimentação saudável.
Atualmente, Bernadete de Araújo, a Dona Bete, coordena o grupo de produção orgânica da Comunidade da Missão. Ela fala, com alegria, sobre os avanços que levaram a produção local a se tornar fonte de renda:
“A gente fabrica o nosso chocolate de forma orgânica, com o processo de fermentação nas casas mesmo, dentro de casa, particular. Tudo que se produz aqui é familiar. Todo mundo carrega, na sua família, o conhecimento tradicional da sua ancestralidade. Isso é respeitado. Cada um faz do jeito que sua mãe fazia, e isso é muito bom. Isso vale muito para cada uma de nós, a nossa tradição raiz.”
Certificação orgânica
A partir de 2019, o grupo de pouco mais de vinte mulheres da comunidade buscou a certificação orgânica dos chocolates produzidos de forma sustentável no local.
Inicialmente, a associação se consolidou como Organização de Controle Social. Pouco depois, como Sistema Participativo de Garantia. Quando veio o reconhecimento junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária, Dona Bete entendeu que esse era o sonho de sua mãe e de outras precursoras que inspiraram o desenvolvimento da economia local.
“E aí uma olhou para a outra e começamos a conversar: ‘É isso que a nossa mãe queria. Elas eram visionárias’. Elas foram muito visionárias. E elas queriam era aquilo ali, era o nosso reconhecimento de agricultoras orgânicas, que nós nunca plantamos com veneno.”
Apoio técnico
Essa trajetória só foi possível com apoio técnico de órgãos públicos e organizações sociais, como o Instituto Mamirauá, que oferece cursos que envolvem a prática do manejo agroecológico de diferentes culturas na região.
Fernanda Viana, coordenadora de agroecossistemas do Mamirauá, explica o que a certificação da produção orgânica do cacau significou para a Comunidade de Missão:
“A certificação orgânica trouxe a oportunidade para essas mulheres de um reconhecimento, de uma valorização de um trabalho que já era diferenciado. Um trabalho que tem todo um cuidado com a produção do campo, que não utiliza nenhum tipo de insumo externo, como os agrotóxicos, como materiais que são sintéticos. Toda a produção dessas mulheres é natural. E a certificação orgânica traz uma confiabilidade para essa produção.”
Embora ainda em pequena escala, a produção do chocolate no coração da Amazônia tem garantido a participação em chamadas públicas, feiras locais e até mesmo dentro da própria comunidade, que fica a 8 km de Tefé.
O trabalho coordenado por Dona Bete garante sabor único aos chocolates em barra, ovos de Páscoa e bombons, feitos de cacau puro.
“Nós já temos o cacau com cupuaçu, nós temos cacau com castanha, castanha-do-brasil, nós temos cacau com mangarataia, cacau com coco, cacau, coco, banana, castanha. E a gente vai criando os nossos próprios sabores.”
Mesmo com todo esse repertório, Dona Bete ainda desafiou a própria filha a fazer um bombom “medicinal”. O resultado poderá ser conferido neste Sábado de Aleluia, dia 4, na feira de Tefé.
“Esse bombom vai ser a partir de mel de abelha, gotas de limão, mangarataia e andiroba. Então, ele vai servir para vários tipos de doença, para inflamação em geral, para gripe.”
As vendas também acontecem por delivery na região de Tefé, com embalagens tradicionais, feitas com folha de cacau. A nova conquista será desenvolver uma embalagem comercial sustentável.
*Com produção de Salete Sobreira

