Filho de espanhóis, nascido em Santos (SP), José Fornos Rodrigues, o Pepito, talvez tenha sido o amigo mais próximo que Pelé teve. E um dos mais duradouros.
Para contar algumas histórias, de sua vida e principalmente das vividas pelo e com o Rei do Futebol, Pepito (Zezinho, em português) lançou “Pelé, O Legado Desconhecido”.
Julguei atrativo esse livro, com conteúdo exposto por alguém tão próximo ao incomparável futebolista, a fim de saber o que de desconhecido poderia haver ali.
Pepito, que escreve em linguagem sem rebuscamentos e com doses de humor, não se preocupa demais com a cronologia, indo e voltando conforme considerasse relevante.
A aproximação maior com Pelé –afora encontros eventuais com amigos em comum– deu-se, relata, quando atuava na Varig (era consultor de vendas). Ao conseguir que o time do Santos viajasse com a companhia aérea (para destinos no Brasil e fora, nas constantes excursões), passou a ajudar Pelé com certos favores, como comprar lembrancinhas nas cidades visitadas.
A partir do começo dos anos 1970, Pepito atuou como braço direito na seara profissional, fora dos gramados, de Edison Arantes do Nascimento (Edison com “i” mesmo, de acordo com a certidão de nascimento citada no livro, diferentemente da grafia consagrada, Edson), desempenhando o papel por cerca de cinco décadas, o que o capacita a relatar muito do convivido com Pelé.
Frise-se que ele não foi empresário de Pelé, como tinha sido um xará, Pepe Gordo, cuja administração dos negócios do jogador na década de 1960 resultou em elevado prejuízo financeiro.
Pepito era assessor em áreas específicas, com mais ênfase em umas que em outras: comercial, administrativa, logística, marketing, publicidade, gestão de imagem.
Há episódios desconhecidos no livro?
Uns Pepito assegura que só revelou nessa obra. E alguns são, se não inéditos, interessantes e/ou peculiares, como o primeiro encontro do filho de Sérgio e Cilda com o filho de Dondinho e Celeste, em um bailinho no porão de uma casa em Santos –Pepito, então com 19 anos, era músico, e Pelé, já consagrado, tinha 21– e o dia em que salvou o camisa 10 de ser esfaqueado em um hotel na antiga Iugoslávia.
Na narrativa de Pepito aparecem, em diferentes momentos da trajetória dele ou do craque, personagens conhecidos como Ana Maria Braga, Ney Latorraca e Milton Nascimento –Pelé, por usar uma boina parecida, foi mais de uma vez confundido com o cantor.
De forma afetuosa, Pepito adjetiva Pelé (atencioso, humilde, paciente, observador, perfeccionista e gozador) e dá exemplos que sustentam esses adjetivos. Com fotos do acervo do autor, “O Legado Desconhecido” deixa a sensação de que tudo deu certo entre a dupla. E pode ser que tenha mesmo dado, enquanto Pelé viveu.
Depois, nem tudo são flores. É digno de nota que Pepito, talvez para não tocar em um tema desagradável, omite no livro desavença com familiares do Rei após a morte dele.
A proximidade fez com que Pelé o nomeasse seu testamenteiro, tendo direito a uma remuneração de até 5% sobre o patrimônio. Pepito pediu na Justiça a remuneração máxima sem cumprir, segundo Márcia Aoki, viúva de Pelé, a função que lhe fora outorgada.
A questão da herança ficou convenientemente fora do “Legado”. Desconhecida.

