1389 vítimas de bala perdida. 192 crianças baleadas. 359 chacinas nos últimos dez anos. Isso só no Rio de Janeiro. Os dados são do Instituto Fogo Cruzado e foram repassados à CPI do Crime Organizado pela fundadora do Instituto, Cecília Oliveira, que prestou depoimento nesta terça-feira.
Ela aponta a causa para aumento do crime organizado, não só no Rio, mas em todo o país.
“É aquilo que eu chamo de adubo do crime. O que que isso significa? Que o crime, ele vai crescer vigorosamente onde falta o Estado. E eu falo que falta o Estado no sentido de falta de fiscalização especificamente, e onde, ao mesmo tempo, há uma colaboração dos agentes públicos. E eu não estou falando aqui especialmente de polícia não. Eu falo aí sobre toda a qualidade de servidor público: desde o deputado, o juiz, o secretário que fecha os olhos aí para alguma situação, até, obviamente, o policial que vai buscar o arrego, que a gente sabe que, infelizmente, é uma realidade.”
Cecilia Oliveira ainda traz outro dado relevante. Em duas décadas, as milícias aumentaram mais de 300%. Mais de 500% se pensarmos em zonas de influência, que é quando não há o controle, mas a prestação de serviços e presença de grupos armados.
A solução, segundo ela, é agir em conjunto. Políticas organizadas nacionalmente e não localmente como ocorre hoje.
“Porque o crime se nacionalizou, mas as políticas de segurança pública ainda não. E a gente sabe: o PCC está aí, em 28 países; o Comando Vermelho, ele avança sobre estados, sobre rotas internacionais na América Latina; e nós ainda tratamos esse problema de forma local, de forma fragmentada, com instituições que brigam ou por protagonismo ou por orçamento, ao invés de conseguir cooperar. E é papel dos governadores eles sentarem juntos para poder enfrentar esse problema que afeta todos nós de forma coordenada. E esse movimento, ele precisa, de fato, ser liderado pelo Legislativo e pelo Governo Federal.”
Nesta terça-feira, a CPI do Crime Organizado iria ouvir também o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, Belline Santana, mas por uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, ele foi desobrigado a ir. Bellini tinha pedido para não comparecer porque está em São Paulo e, por causa da tornozeleira eletrônica, não pode sair de lá para vir à Brasília falar à CPI.
Ele foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero. É acusado atuar como uma espécie de consultor informal de Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Bellini e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do BC. Os dois foram afastados da função por decisão do próprio André Mendonça.

