terça-feira 3, março, 2026 - 3:00

Esporte

Abaixo os fones de ouvido – 02/03/2026 – No Corre

Uma coluna publicada neste espaço há exatamente um mês, intitulada “Se não dorm

image_printImprimir


Uma coluna publicada neste espaço há exatamente um mês, intitulada “Se não dormir, não corra“, gerou mais comentários sobre uma questão lateral abordada ali —o (não) uso de fones de ouvido— do que o tema propriamente dito: a importância do sono para a realização de atividade física.

O leitor Carlos Lopes da Silva Filho considerou “frase polêmica e perdida” minha indicação de se privar dos fones de ouvido, e não das horas de sono, caso necessária a privação de algo.

Gustavo Araújo realçou sua relação com a música: “Sou corredor há uns 35 anos e digo que quando comecei a usar fones e MP3 —isso já tem duas décadas— a experiência passou a ser muito melhor. Cada um é cada um, já dizia o poeta”.

Tiago Lopes Alcântara considerou que este colunista de alguma forma tentava interditar o uso do acessório: “Gostaria de mais contexto pela proibição veemente do uso de fone de ouvido para correr. Foi bem categórica, mas sem explicação nenhuma. Qual o lance?”.

Houve, tempos atrás, uma edição da maratona de Sorocaba em que fones de ouvido foram proibidos, e a polêmica que isso suscitou foi grande, o que talvez explique a reação de Alcântara.

Não milito contra o uso de fones de ouvido na corrida, seja ela em parques, seja ela na rua, mesmo quando é preciso atravessar cruzamentos. Talvez só quando ocupamos o espaço das bicicletas nas ciclovias, que ali se tornam o carro da vez, valha a pena apurar os ouvidos para escutar o assobio, a buzininha (ou o xingamento).

O que defendo é o aproveitamento de um bônus que a corrida dá, ou pode dar: o relaxamento cognitivo. Passamos as nossas muitas horas de vigília a clicar compulsivamente em telas, abandonando hábitos que até anteontem eram muito mais comuns, como ler ou ficar simplesmente de bobeira sentado num banco do parque. O iPhone, é bom lembrar, ainda não completou 20 anos de existência.

Ao correr e jogar para dentro da cabeça uma playlist, ou um podcast, você necessariamente passa a ter de se concentrar naquelas músicas ou naquelas informações que está ouvindo. Repare: quando outras percepções assumem protagonismo, numa mudança brusca de direção ou velocidade, por exemplo, a música desaparece como que por mágica.

Eu mesmo, nas poucas vezes em que corri com um velho iPod, me lembro de “perder” algumas faixas sonoras, não recordar depois do cascalho de tê-las ouvido, muito provavelmente porque outras situações mais importantes naquele momento captaram minha atenção.

São cada vez mais raros os espaços de relaxamento total. Recomendo muito a meditação, e, de fato, tentar sentir a mudança de temperatura no ar que entra e sai pelas narinas é uma âncora notável para não se deixar levar pela corrente de pensamentos aleatórios que nos impedem de relaxar e meditar –mantras como o velho “on” também são bem eficazes. A natação também, até onde eu sei, é um esporte que exige concentração total embaixo d’água.

A corrida também pode ser esse espaço de detox digital. Mesmo quando os Strokes ou a “Pompa e Circunstância“, de Elgar, podem ajudar a vencer mais dois ou três quilômetros, vale a pena experimentar desplugar.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte da Notícia

Leave A Comment