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Esporte

Acidentes na natureza: de quem é a culpa? – 25/02/2026 – É Logo Ali

O julgamento do alpinista austríaco identificado apenas como Thomas P., condenado no úl

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O julgamento do alpinista austríaco identificado apenas como Thomas P., condenado no último dia 19 de fevereiro por um tribunal local pela morte da namorada, Kerstin G. por hipotermia na montanha mais alta da Áustria, o Grossglockner, reacendeu um debate que vem se arrastando há anos sobre até onde vai a responsabilidade de quem está com alguém numa trilha ou montanha quando tudo dá errado. E, como não há uma lei que estabeleça objetivamente o que, como e quando fazer na hora dos grandes perrengues, tudo o que se pode dizer é: a responsabilidade deve ser avaliada caso a caso e a única lei que vale na montanha sem exceção é…a da gravidade. E com essa não se brinca.

A corte austríaca questionou por que Thomas, mais experiente que Kerstin, a deixou perto do cume de 3.798 metros de altitude, desprotegida e exausta, sem quaisquer equipamentos de proteção, em condições climáticas adversas, nas primeiras horas da manhã do dia 19 de janeiro de 2025, depois de toda uma noite expostos ao frio extremo e sem ele ter sinalizado ao helicóptero que sobrevoava a área a necessidade de auxílio para sua companheira.

Condenado a cinco meses de prisão e a multa de € 9.400 (R$ 57,6 mil), por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) por negligência, Thomas ainda aguarda recurso em liberdade condicional. Mas a decisão, rara no universo do montanhismo, significa “uma mudança de paradigma para os esportes de montanha”, como publicou o jornal austríaco Der Standard, citado pela BBC.

E, se o caso surpreendeu os austríacos, no Brasil o frisson não está diferente. Todos os grupos de trilhas e escalada lembraram de casos de impacto midiático como o de Roberto Farias Thomaz, que se perdeu na descida do Pico Paraná após ser deixado para trás pela amiga Thayane Smith , mobilizando dezenas de pessoas por quatro dias em um resgate que, afinal, terminou com ele próprio chegando a uma casa completamente fora do foco das buscas. Ou do acidente com a menina Juliana Marins, que caiu pela borda do vulcão Rinjani, na Indonésia, morrendo após ser deixada para trás pelo guia e depois de uma demorada operação de resgate pelas despreparadas autoridades locais.

Para o montanhista e guia experiente com a agência Alta Montanha Pedro Hauck, a responsabilidade de quem leva pessoas para uma trilha ou escalada não é abstrata, “qualquer acidente sempre vai ter um responsável”. E se isso pode soar óbvio, ele aponta que “muitos juristas e pessoas que só opinam vão falar que, se o acidente ocorre num parque, a responsabilidade é do parque, mesmo que haja uma relação comercial, onde, para mim, a responsabilidade objetiva é de quem está vendendo a atividade”.

Sobre a sentença austríaca, Hauck avalia que foi “uma boa decisão, porque se o responsável é o participante, o dono ou gestor da área pode ficar tranquilo pois não vai ser condenado, o que é justo, porque quem está dando segurança ao grupo, esse é o responsável e, por mais que isso seja ruim por um lado de pôr um peso sobre mim, que vendo a atividade, por outro é bom porque vou ter de ser responsável por mim mesmo, nunca será um terceiro que nem conheço, a galera faz muita coisa difícil sobre a qual não tem domínio e acaba gerando acidentes por imperícia”.

A imperícia, somada ao aumento exponencial da procura por montanhas e trilhas instagramáveis por pessoas que não têm conhecimento das técnicas básicas para sua realização, é algo que assusta Ricardo Ishigami, instrutor de escalada com vasta experiência. “Entre nós, escaladores, costumamos dizer que a montanha revela quem de fato as pessoas são, o caráter e os valores de cada um, especialmente quando a situação envolve algum estresse”, ressalta ele.

Ishigami diz que na escalada, caso do casal austríaco, é fundamental “ter cuidado com quem você está ligado numa montanha, é a sua vida que está na ponta de uma corda”. Ele avalia que “muita gente vai escalar uma montanha, fazer uma trilha, sem base nenhuma, sem conhecimento técnico, porque vê nas mídias sociais, vê um tutorial no YouTube e acha que já sabe fazer, e isso nos tem deixado assustados, porque sabemos que não é bem assim”.

“O que estamos vendo com isso”, acrescenta, “é essa quantidade de acidentes que ainda tende a aumentar, porque a rede social não vai te contar a hora de abortar um cume ou trilha por causa da chuva, ou de raios”.

Crítico do excesso de comercialização de “experiências”, Ishigami cita outro risco embutido justamente no excesso de demanda pelos registros mais vistosos. “Você tem vias de escalada no Corcovado, no Dedo de Deus, na Agulha do Diabo, e vêm escaladores do mundo inteiro, então os guias podem cobrar deles até US$ 300, mas temos notado que muitos desses guias estão levando gente que nunca escalou, que vai ser literalmente puxada para o alto para comemorar um aniversário, por exemplo, com uma bela foto para a rede social”.

O maior risco embutido nesse “elevador” de amadores, explica Ishigami, é o guia ter algum dos problemas mais frequentes na montanha —como ser atingido por uma rocha que caia do alto, ou se ver em meio a um enxame de abelhas— e o leigo ficar ali sem a menor ideia do que fazer para acudi-lo ou mesmo de como descer em busca de resgate. Ou o cliente, ignorante dos procedimentos básicos de segurança que o guia de repente nem seguiu para ir mais rápido até o cume e registrar a “façanha” de seu guiado, acabar se acidentando ou, até, morrendo. “E aí, ele vai dizer que a culpa foi do turista, que se desencordou, que não obedeceu, e não há perícia que saiba identificar o que realmente aconteceu, então não tem lei que estabeleça os procedimentos corretos e os limites a serem avaliados, porque a única lei que é imutável na montanha é a da gravidade”, resume.

Também Marcelo Rey Belo, presidente do CAP (Clube Alpino Paulista), afirma que de pouco adianta esperar que leis resolvam o problema da responsabilidade. “As federações e confederações de montanhismo foram criadas muito por uma necessidade de ‘defender’ os praticantes amadores de leis impraticáveis”, diz ele, lembrando que, “no início dos anos 2000, começaram a surgir ideias de que para escalar era preciso ter junto um professor de educação física, uma ambulância, preocupações que até fazem sentido em uma excursão comercial, mas tornam inviável que dois amigos saiam para explorar novas montanhas”.

Rey Belo pondera que, embora legisladores queiram eliminar riscos, “e acreditem que é possível fazer iso com leis, além de elas não resolverem nada, muitas vezes criam, nos neófitos, uma falsa sensação de segurança que, de fato, aumenta ainda mais os riscos”.

“Existe no montanhismo um princípio ético muito forte: quem sai junto, volta junto, isso traduz o compromisso entre parceiros de cordada”, acrescenta ele. “Ao mesmo tempo, há situações em que permanecer pode significar colocar duas vidas em risco, e descer para buscar ajuda pode ser a única alternativa possível. Cada episódio precisa ser analisado dentro de suas circunstâncias concretas”.

Ele resume sua posição, lembrando que fala por si, não pelo clube, que “a montanha exige um equilíbrio delicado de liberdade com responsabilidade, pois sem responsabilidade, há imprudência, mas sem liberdade, não há montanhismo”.

Trocando em miúdos, porque a conversa ainda vai render um bocado e está longe de ter uma conclusão, vale a velha máxima que reza “se não sabe brincar, não desce pro play”. Ou, no caso, não suba pro cume.



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