domingo 18, janeiro, 2026 - 17:39

Esporte

Estudo tático é coisa de europeu? – 18/01/2026 – Esporte

A pergunta que abre o texto é retórica, claro. Não sobrevivem boleiros que acreditem q

image_printImprimir


A pergunta que abre o texto é retórica, claro. Não sobrevivem boleiros que acreditem que a tática seja traço exclusivo do futebol europeu.

Mas persiste a ideia de que as vitórias brasileiras em Copas do Mundo se explicam apenas pelo brilho individual de seus jogadores, como se o sucesso tivesse sido fruto de genialidades isoladas.

Os 24 anos de jejum abriram espaço para clichês como o que todos já encontramos na arquibancada ou na internet: “desde que começamos a copiar o tatiquês europeu, nunca mais ganhamos”.

Ironicamente, a correlação mais próxima da realidade é a oposta. O Brasil deixou de chegar a finais de Copas depois de ter deixado de estar na vanguarda tática de seu tempo, que ocupou por décadas.

Aqui, é reveladora a ausência de comunicação entre duas bibliografias. Por um lado, as histórias das táticas escritas em inglês, alemão, italiano e holandês não mencionam o Brasil, a não ser como morada do talento individual que a tática terá que superar.

Por outro lado, na crônica e na história oral produzidas pelo Brasil sobre seu futebol, praticamente não se fala de tática. Ela não recebe créditos pelas vitórias, que são atribuídas aos gênios individuais, como se eles tivessem operado soltos, fora de um padrão.

O mito é antigo. Já em 1938, Gilberto Freyre explicava o bom papel na Copa da França pela “espontaneidade individual […] rebelde a excessos de ordenação interna; a excessos de uniformização, de geometrização, de standardização”.

O futebol brasileiro que derrota tchecos e poloneses na Copa de 1938 já está completamente atravessado pela influência húngara, mas Freyre desconhece ou omite o fato. Ele complicaria a oposição simplista entre espontaneidade brasileira e geometrização europeia.

O húngaro Eugenio Marinetti (Jeno Medgyessy) havia revolucionado as histórias de Botafogo, Fluminense, Galo, Palmeiras e São Paulo, com métodos de treinamento e variações táticas depois decisivas para o escrete de 1938. Romeu Pelliciari havia sido comandado por Marinetti no Palestra Itália, e foi chave para que o Brasil transformasse a pirâmide (2-3-5) em um esquema que povoava o meio-campo com o recuo dos dois internos. Não consta que Freyre tivesse notícia de que outro húngaro, Dori Kürschner, foi conselheiro do técnico Adhemar Pimenta.

Em 1958 e 1962, a inovação tática foi tão importante que choca não termos um livro sobre o assunto. Depois de décadas de dominação global do WM (3-2-2-3), o Brasil inventava a linha de quatro defensores e a marcação por zona. Ao transmitir Brasil 3 x 1 Inglaterra (1962), o narrador da BBC, Kenneth Wolstenholme, se encantava com o que ainda lhe parecia uma inovação: “eles marcam espaços, e não homens.”

A linha de quatro permite ao Brasil outra inovação tática, o surgimento do lateral atacante, que ultrapassa o ponta. O argentino Marzolini e o italiano Facchetti são exemplos do quão influente foi a arte inventada pelo brasileiro Nílton Santos.

As limitações do 4-2-4 ocasionaram mais uma inovação, o ponta que recua e fecha o meio —arte inaugurada por Telê Santana, no Fluminense, e depois consagrada pela atuação de Zagallo em 1958 e 1962.

Nós não perdemos Copas porque começamos a nos preocupar com tática. É o contrário. O período de jejum coincide com a consolidação de uma mentalidade complacente, espontaneísta, avessa ao estudo, que defasou os técnicos brasileiros até em relação aos portugueses.

A chegada de Carlo Ancelotti e o sucesso de treinadores estudiosos como Filipe Luís são alentos, e sinais de que a maré pode estar mudando.



Fonte da Notícia

Leave A Comment