Wanderlei Oliveira, um rei da São Silvestre – 29/12/2025 – No Corre
Pouquíssimos eventos conseguem completar mais de cem anos, e menos ainda são os que celebram o centenário sem quase jamais falhar. Por isso, brindemos à São Silvestre, que realiza nesta quarta-feira (31) sua centésima edição.
Organizada desde 1925, ela só teve sua sequência perfeita, até então sem interrupções, maculada pela Covid-19, em 2020.
Os brasileiros não são os grandes vitoriosos na chegada na Paulista —nos primeiros 40 anos da corrida, a propósito, o itinerário passava longe da mais famosa avenida da cidade.
São estrangeiros os principais protagonistas da história do evento.
Caso do tcheco Emil Zátopek, talvez o maior corredor de todos os tempos, que disputou, e levou, a edição de 1953. É verdade que não se esperava outra coisa do “Locomotiva Humana”, o sujeito que havia vencido as provas de 5.000 metros, 10.000 metros e de maratona numa mesma Olimpíada, a de Helsinque, no ano anterior.
Casos também da portuguesa Rosa Mota, outra campeã olímpica dos 42 km, que celebrou, como prólogo de seu ouro em Seul, em 1988, o hexacampeonato consecutivo na SS; e do queniano Paul Tergat, que, com cinco títulos, tornou-se o maior vencedor masculino. O Quênia lidera com enorme folga o ranking de campeões da prova.
Embora corra desde criança, na juventude tenha se tornado velocista de alto rendimento, mais à frente treinador e difusor da atividade, o paulistano Wanderlei Oliveira, 66, jamais disputou para valer a SS.
Correu-a por dois anos, mas em “pace” recreativo, apenas para acompanhar dois pupilos, um então jornalista da TV Globo e o jogador de futebol Neto, em 1992 e 1996, respectivamente.
Mesmo assim, WO talvez seja o personagem mais assíduo na SS: começou menino torcendo e esperando na Paulista por seu pai, que chegou a ser beque do Corinthians e às vezes disputava a prova, então noturna.
Desde 2000 WO comenta a prova, na transmissão ao vivo da TV Gazeta, emissora pertencente à Fundação Cásper Líbero, que leva o nome do jornalista que criou a SS e é detentora de seus direitos.
No entrementes, de 1979 a 1985, WO atuou como representante da Federação Paulista de Atletismo. Cabia a ele levar espetos de ferro com os “bibs”, os números de peito dos atletas, então de tecido, para a sala de conferência.
(Funcionava assim: os primeiros colocados passavam pela linha de chegada e tinham seus bibs rasgados e inseridos nos espetos do parça.)
A sala era no quinto andar do prédio da Gazeta, e os elevadores já haviam sido desligados. Mas subir cinco andares no pau não era, afinal, tão difícil para um competidor dos 400 rasos.
Fora do ambiente da SS, pode-se dizer que WO é uma espécie de buda nagô da corrida, um Caymmi do cascalho que, com sua voz baixa e pausada, treina pessoas de idades muito distintas no Centro Olímpico de Treinamento do Ibirapuera. Ele ainda escolhe poucas provas ao longo do ano para disputar e sempre encerra seus tuítes com o bordão “vamos correr”.
E, mesmo que a corrida em WO seja, como se vê, essência, não acidente, gosto de dizer que antes de qualquer coisa ele é um estatístico. O homem registra escrupulosa e diligentemente seus cascalhos diários, das provas internacionais aos giros mais comezinhos –adjetivo que ele jamais acoplaria ao substantivo “corrida”.
Na semana passada seu “scout” contava 151.705 quilômetros. A aferição começou há 60 anos, aos seis anos de idade.
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