Verão não é a melhor época para montanhismo – 30/12/2025 – É Logo Ali


Nesta edição, em homenagem às comilanças festivas, vamos falar de montanhas e escaladas —e sugerir que o leitor as deixe de lado por uns tempos, pelo menos neste lado do Equador. Com as tempestades previsíveis, típicas do verão, a temporada tradicional de montanhismo já está mais do que encerrada e a última coisa que queremos é o aumento das estatísticas de acidentes pelas belas matas de nossas paisagens.

Há poucos dias, os grupos de montanhismo discutiram o caso de dois jovens que ficaram duas noites perdidos e sem equipamentos minimamente adequados na parananse serra do Ibitiraquire, na Serra do Mar, enquanto procuravam descobrir um jeito de subir ao cume de uma das montanhas mais exigentes da cadeia, o pico Ferraria. A cerca de 1.745 metros de altitude, sua subida é classificada como de muita dificuldade, por exigir longas horas de caminhada técnica por trechos íngremes e escorregadios.

Segundo os relatos, eles mesmos haviam feito questão de registrar sua ignorância, ao deixarem uma nota no caderno de cume do Taipabuçu: “Não sabemos como chegar no Ferraria, mas vamos dar um jeito”, dizia o singelo texto, para a posteridade. Assim, quase um epitáfio.

Para sorte dos moleques, o anjo da guarda estava fazendo hora extra naquele dia e eles acabaram sendo resgatados, depois de dois dias perdidos na região, pelo Grupo de Operações de Socorro Tático do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná. Um final envergonhado, mas feliz para quem podia estar prestando contas a São Pedro, que havia aberto as comportas do céu para uma forte tempestade dessas que foram notícia nas últimas semanas e que, infelizmente, ainda vão continuar a ser nas próximas.

O que fica desse e de tantos outros casos semelhantes é uma regra básica e muito simples, mas pétrea: na montanha não se dá jeito. Ela não está nem aí para suas boas intenções de aprender errando. O erro, na natureza, não raro é pago com a vida.

As intempéries já derrubaram gente muito mais experiente do que o incauto atrevido jamais vai chegar a ser —se não criar juízo. A hipotermia é um risco real que não se limita às altitudes nevadas dos grandes cumes do planeta. Aliás, é no verão quando mais casos são registrados no Brasil, atropelando aventureiros encharcados pelas tempestades que os pegam expostos aos ventos que roubam todo o calor do corpo e das roupas úmidas em questão de minutos. E não vamos sequer falar de raios, que deixam o país em sétimo lugar no ranking de mortes por descargas elétricas, com 78 milhões de eventos anuais —maior incidência registrada em todo o mundo.

A Serra do Mar é um paredão que segue, como o nome indica, ao longo de aproximadamente 1.500 quilômetros do litoral de Santa Catarina ao norte do Rio de Janeiro. Nela, o verão traz um componente traiçoeiro de mais umidade aliada ao forte calor da estação. A combinação gera praticamente todos os dias as temidas cumulus nimbus, assustadoras nuvens de chuva que pretejam o céu em minutos, despejando tonéis de água que põem em risco as encostas cada vez mais vulneráveis aos rompantes climáticos.

Essas chuvas repentinas, que nem sempre caem ao mesmo tempo em todo lugar, trazem mais um risco muito frequente nesta época: as cabeças d’água, enxurradas que se formam nas regiões mais altas mesmo enquanto lá embaixo na trilha ou na cachoeirinha aparentemente tão tranquila tudo ainda parece ensolarado, e levam por diante o caminhante desavisado antes de que ele sequer entenda o que aconteceu. Todo verão registram-se casos como esses. Muitos vão parar nas redes sociais. Outros, vocês já imaginam e não sou eu quem vai querer estragar o espírito de boas festas dando notícias ruins.

Sem querer soar terrorista nem desanimar quem acabou de ganhar aquela mochila tão linda do Papai Noel, só vou deixar de presente uma sugestão a quem acha que pode estrear seu espírito montanhista quando o calor parece aconselhar a procurar a fresca das encostas: espere mais uns meses, a montanha ainda vai estar lá.


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