Uso banalizado de remédios pode lesionar o fígado, diz hepatologista
O uso de medicamentos faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Para qualquer dor de cabeça ou desconforto muscular, a farmacinha caseira sempre abastecida é utilizada. Mas o que muita gente ignora é que até remédios comuns podem provocar lesão no fígado, especialmente quando usados sem orientação ou em doses inadequadas. Analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos e até suplementos naturais entram na lista de possíveis vilões.
Segundo especialistas, o problema não está apenas nos medicamentos mais fortes, mas principalmente no uso banalizado de substâncias consideradas “seguras”.
De acordo com a hepatologista Natália Trevizoli, do Hospital Brasília, medicamentos amplamente utilizados estão entre os principais causadores de lesão hepática.
“Analgésicos como paracetamol, anti-inflamatórios como ibuprofeno e diclofenaco, além de antibióticos como amoxicilina com clavulanato, podem causar danos ao fígado, especialmente sem orientação médica ou em uso prolongado”, explica.
Ela também chama atenção para um erro comum: confiar cegamente em produtos naturais. Suplementos e fitoterápicos voltados para emagrecimento, ganho de massa ou “detox” estão cada vez mais associados à lesão hepática, muitas vezes por conter substâncias tóxicas ou não declaradas.
Já o hepatologista Rogério Alves, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, faz um alerta mais direto: qualquer medicamento pode afetar o fígado. “Existe o que chamamos de reação inesperada. Mesmo um remédio comum pode causar lesão hepática em determinadas pessoas”, afirma.

Quando o paracetamol deixa de ser seguro
O paracetamol é um dos medicamentos mais utilizados no mundo, e também um dos mais perigosos quando mal utilizado. O risco começa quando a dose ultrapassa cerca de 3.000 a 4.000 mg por dia em adultos ou quando há uso contínuo sem acompanhamento.
Alves complementa com um cenário mais extremo: “Doses muito altas, como 10 a 15 gramas em um único dia, podem causar insuficiência hepática grave, levando o fígado a parar de funcionar.”
Além da dose, fatores como consumo de álcool, doenças pré-existentes e uso combinado com outros medicamentos aumentam significativamente o risco de lesão hepática.
Um dos maiores problemas da lesão hepática é que ela costuma ser silenciosa no início. Quando os sintomas aparecem, o fígado já pode estar comprometido.
Sintomas da lesão no fígado
- Cansaço excessivo;
- Náuseas e perda de apetite;
- Dor no lado direito do abdômen;
- Urina escura;
- Coceira na pele;
- Pele e olhos amarelados (icterícia).
Alves reforça que, muitas vezes, o diagnóstico só acontece por exames de rotina. Quando o paciente já apresenta sintomas como icterícia, o quadro pode estar mais avançado.
Quem corre mais risco, e como se proteger
Nem todo mundo tem o mesmo risco de desenvolver lesão hepática. Os grupos mais vulneráveis incluem:
- Pessoas que consomem álcool com frequência;
- Pacientes com doenças no fígado, como hepatite ou gordura hepática;
- Idosos;
- Quem usa múltiplos medicamentos;
- Usuários frequentes de suplementos e fitoterápicos.
Para reduzir os riscos, os especialistas são diretos, e não há muito espaço para interpretação: automedicação é o principal erro. “Tomar remédio por conta própria, mesmo os mais comuns, não faz sentido do ponto de vista médico”, afirma o hepatologista Alves.
É essencial respeitar as doses, evitar álcool durante o uso do remédio e informar ao médico tudo o que está sendo consumido, incluindo vitaminas e chás. A ideia de que “remédio comum não faz mal” é simplesmente falsa.
A lesão hepática pode surgir de forma silenciosa e evoluir para quadros graves. O problema não está só no medicamento em si, mas no uso irresponsável — e esse continua sendo muito mais comum do que deveria.