Técnicos do Brasil sofrem de etarismo, diz Hélio dos Anjos – 05/01/2026 – Esporte


Técnico mais velho em atividade nas três principais divisões nacionais em 2025, Hélio dos Anjos, 67, conta ter saudades do “futebol à moda antiga”, mas prefere jamais voltar a treinar novamente um time de Série A a abrir mão de suas próprias convicções.

Para renovar contrato com o Náutico para 2026, clube que ajudou a subir da Série C para a B neste ano, precisou remodelar o seu contrato: além do trabalho de campo, agora controla, ao lado do filho e auxiliar Guilherme dos Anjos, a gestão de todo o departamento de futebol do clube.

“Hoje está insuportável. Para falar com um jogador, há a figura do assessor, do agente que fez a compra ou venda para determinado clube, do empresário principal, que é seu proprietário, até de um guru espiritual. É uma dificuldade”, explica à Folha.

“Se discuto algo com o meu atleta, ele liga para o empresário, que nunca fala que está errado. Diz que o treinador é mau e que já tem outro time para ele. É assim que resolvem agora”, completa.

Sua permanência no mercado é vista como uma exceção a uma tendência que, para ele, tem nome: etarismo.

O treinador, que acumula passagens por 35 clubes, além da seleção da Arábia Saudita, títulos importantes e diversos acessos na carreira, afirma que a idade se tornou um rótulo de desqualificação absorvido pelos dirigentes.

“Treinadores brasileiros sofrem de etarismo. Há ótimos profissionais que estão em casa há um ou dois anos: Vanderlei Luxemburgo, Oswaldo de Oliveira, Celso Roth… porque foram rotulados como ultrapassados por sugestão de uma elite da imprensa. Todos esses têm muito mais a oferecer para o futebol brasileiro do que eu e estão fora do mercado”, desabafa.

Hélio dos Anjos recorda um episódio recente em que seu nome foi vetado em um clube que disputou a Série A neste ano, mesmo tendo sido campeão em passagens anteriores: “citaram o meu nome e o presidente falou que eu estava totalmente superado. O time foi rebaixado e eu subi o Náutico. Será mesmo?”, questiona.

Para ele, a origem desse preconceito está diretamente ligada ao desastre da derrota por 7 a 1 da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014.

O experiente comandante aponta que a goleada na semifinal diante da Alemanha colocou em xeque toda uma geração, personificada em Luiz Felipe Scolari, e abriu espaço para um “modismo” por estrangeiros nem sempre qualificados.

“Aquele resultado minou com quase todos os treinadores brasileiros que estavam naquela faixa etária do Felipão, tachados como superados, que não têm estudo ou sem conhecimento”, pontua.

“O modismo levou os clubes a errarem muito. O [português] Pepa chegou ao Brasil sem nunca ter dirigido um clube de massa. O [Jorge] Sampaoli treinou três times de massa no Brasil, mas ganhou o quê? Se um brasileiro fizesse o que o [Luis] Zubeldía fez no São Paulo ficaria o tempo que ele ficou no clube?”, completa.

A modernização física e estrutural é vista como necessária pelo treinador, que elogia a estabilização dos clubes e a ascensão de forças emergentes, como o Mirassol. Contudo, aponta que a nova geração de técnicos permitiu um esvaziamento da autoridade.

“Os treinadores mais jovens deixaram esvaziar o comando. Não conheço um executivo que cuida da disciplina. Hoje, o fisiologista decide quem um treinador vai escalar. Ele pode até me trazer informações, mas não decide. Isso os mais velhos não aceitam. Eu tenho mais de 20 profissionais que trabalham diretamente comigo no Náutico, mas a decisão é minha.”

Apesar das críticas, o experiente profissional evita o saudosismo cego. Reconhece méritos em nomes como Abel Ferreira e vê com bons olhos as ascensões de Filipe Luís, do Flamengo, e de Rafael Guanaes, do Mirassol.

“Quem ficou [dos estrangeiros] foi por competência. O Abel está aí porque deu retorno, mas agora vai ficar só quem dá resultados. O Guanaes é muito bem formado, principalmente porque pegou casca trabalhando nas últimas divisões de São Paulo. Isso, somado ao estudo, é o que tem de melhor para aguentar o futebol brasileiro”, explica.

Para o futuro da seleção brasileira, o veterano foge do óbvio. Embora respeite o italiano Carlo Ancelotti, sua aposta seria em uma solução doméstica que “ganhou casca” nos últimos anos.

“Eu gostaria muito que fosse um brasileiro. Acho que o Rogério Ceni era o nome certo para essa Copa. Ele passou daquela empolgação inicial, equilibrou, tomou muita porrada e hoje tem um nível de trabalho muito bom.”

Desde 2018, ele ressalta que conquistou feitos relevantes quase todos os anos ao lado do filho, mas mesmo assim sempre acabou preterido no mercado. Foram seis títulos no período e três acessos.

“Os clubes da Série C que me procuram sabem que meu valor é alto. Não me desvalorizo. Meus números são esses. Sinceramente, têm treinadores da Série A que não ganham o que eu ganho. Se tiver que ficar em casa, eu fico. Mas meus números estão aí.”



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