Sem premiação em dinheiro, Corrida do Gari de Sampa é palco para velocistas sem ilusões – 01/06/2026 – No Corre
Não há os prêmios da maratona do Rio, que irá distribuir, no próximo domingo (7), US$ 100 mil para os três primeiros colocados dos 42 km; na verdade, não há dinheiro nenhum para os ganhadores, apenas troféus e, talvez, a satisfação por superar outros bons corredores.
Não há grandes possibilidades de quebras de recordes nacionais, como aconteceu neste domingo (31), em Porto Alegre, quando caiu uma marca que já se sustentava por quase duas décadas e meia, justamente a do recorde de maratona, qualquer maratona, algum dia disputada no Brasil.
Não há cobertura de imprensa ampla ou especializada, tampouco trânsito pesado de postagens em redes sociais de influenciadores.
Não dá para chamar a Corrida do Gari de Sampa, que aconteceu neste domingo (31), no centro de São Paulo, de evento massivo.
Mas por ali passam, ou podem passar, pessoas com chances de brilhar no alto rendimento. Alguns coletores de lixo tornaram-se atletas de ponta, caso agora de Johnatas Cruz, que, patrocinado pela New Balance, vive do esporte. Sua melhor marca de maratona é 2:10:23 (Hamburgo, 2023).
Também foi coletor de lixo no interior paulista antes de encetar carreira olímpica Solonei Silva, recorde pessoal na maratona de 2:11:32 (Pádua, 2011).
Na Corrida do Gari deste domingo, a maranhense Vanderleia Moraes de França, 38, sagrou-se bicampeã dos 10 km. Ela abriu na chegada mais de quatro minutos da vice, Danna Valles, mesmo dando-se ao luxo de diminuir o ritmo para poupar um joelho dolorido.
Vanderleia, que deixou a pequena Poção de Pedras já adulta, passando ainda por Goiânia antes de chegar a São Paulo, e aqui trabalhar inicialmente na faxina, não tem ilusões com a corrida. “Tenho duas filhas para sustentar sozinha, preciso pagar aluguel. Não posso deixar o trabalho”, disse à coluna.
Vanderleia trabalha há cinco anos na Ecourbis, uma das concessionárias do serviço de coleta de lixo da cidade, e foi ali que começou a correr, na seletiva organizada pela empresa para os funcionários dispostos a participar da São Silvestre.
Seus tempos de corrida até permitiriam cultivar alguma ambição. Completou a maratona de São Paulo, ano passado, em cerca de 3:15, bastante bom para quem estreava na distância, ela que é afeita a provas muito mais curtas.
Ali, e neste ano novamente, recebeu cachê para correr, algo conquistado por seu treinador Fran Kauê, também responsável por lapidar Johnatas. Os cerca de R$ 2.000 recebidos, equivalente a um mês de trabalho, um décimo-terceiro fora de época, foram muito bem-vindos. “Usei para pagar dívidas.”
Foi muito disputada também a final masculina dos 5 km, vencida pelo cearense de Canindé José Aurísio da Silva. Seu companheiro paulistano Allan Bezerra chegou apenas 9 segundos atrás. Aurísio tinha sido pai pela terceira vez havia dois dias, mas isso aparentemente não interferiu em seu rendimento.
Vanderleia não está mais na coleta, seu trabalho atual é nas ruas, tentando convencer o munícipe a separar o lixo, algo que, por óbvio, é bom para toda a sociedade, não apenas para os coletores, que, assim, correm menos riscos de se ferir com cacos de vidro eventualmente deixados nos sacos.
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