Reforma pode pressionar inflação em 2027?


A reforma tributária pode gerar pressão inflacionária no curto prazo, especialmente em 2027, segundo economistas e tributaristas ouvidos pelo JOTA. Embora o novo sistema tenha sido desenhado para manter a carga tributária total, os impactos serão diferentes entre os setores da economia.

O principal ponto de atenção está no setor de serviços, que tende a ser mais afetado pela substituição de PIS e Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), novo tributo federal previsto na reforma.

Setor de serviços pode ser mais afetado

Hoje, empresas do Lucro Presumido pagam alíquota de 3,65% de PIS e Cofins. Esse regime é amplamente usado pelo setor de serviços.

Com a entrada da CBS, prevista para 1º de janeiro de 2027, a alíquota deve subir. A estimativa atual do governo é de 8,7%.

Como a variação será maior para empresas que hoje recolhem 3,65%, especialistas avaliam que parte desse aumento pode ser repassada aos preços.

Reforma foi desenhada para ser neutra

De forma geral, a reforma tributária busca manter a carga tributária total.

No entanto, a neutralidade ocorre no conjunto da economia, não necessariamente em cada setor.

O ex-secretário extraordinário da Reforma Tributária Bernard Appy afirmou que a simplificação poderá reduzir o peso de tributos em alguns setores, compensando aumentos em outros.

“É óbvio que tem mudanças de preços relativos e ganhos de eficiência, que não se refletem na alíquota. No Brasil, as empresas têm liberdade de fixar seus preços e provavelmente vai haver mudanças. Alguns vão cair e outros vão subir”, disse ao UOL.

Peso dos serviços aumenta preocupação

Para Rafael Barros, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o peso do setor de serviços na economia torna o impacto relevante.

“É um aumento muito grande”, afirmou.

Segundo o texto, o setor de serviços representa mais de 50% das empresas ativas, de acordo com o Mapa de Empresas do governo federal, e 69,5% do PIB, segundo o IBGE.

Além disso, das empresas que estavam no Lucro Presumido em 2025, cerca de 56% pertenciam ao setor de serviços.

Crédito tributário pode beneficiar menos o setor

O advogado tributarista Pedro Siqueira, do Bichara Advogados, explica que empresas do Lucro Presumido hoje não tomam crédito de PIS e Cofins.

Com a reforma, essa possibilidade será ampliada, mas o setor de serviços tende a se beneficiar menos.

Isso ocorre porque muitas empresas prestam serviços diretamente ao consumidor e têm como principal custo a folha de pagamento, que não gera crédito tributário.

“Como naturalmente elas já não operam de forma a ter crédito a tomar, elas não serão muito beneficiadas pela facilidade na tomada de crédito trazida pela reforma tributária”, afirmou Siqueira.

Representantes do setor falam em repasse ao consumidor

Luigi Nese, presidente da Confederação Nacional de Serviços (CNS), afirma que o setor vai “pagar a conta” da reforma tributária.

“Como somos um setor que está na ponta, que vai cobrar o último usuário, ou seja, o consumidor, nós vamos arrecadar os impostos de toda a cadeia produtiva que foi beneficiada”, disse.

Para Antonio Carlos dos Santos, presidente do Sescon-SP, parte do aumento tende a chegar ao consumidor.

“Se fosse um aumento menor, talvez fosse até possível que as empresas absorvessem. Mas com um aumento de 3,65% para 8%, 10% é impossível que isso não chegue ao consumidor”, afirmou.

CBS terá cobrança cheia em 2027

A CBS começará a ser cobrada com alíquota cheia em 2027.

Esse ponto diferencia o tributo federal do IBS, que será implementado gradualmente a partir de 2029 e substituirá ICMS e ISS até 2033.

PIS e Cofins serão extintos já em 2027, enquanto ICMS e ISS deixarão de existir apenas em 2033.

Empresas do Simples Nacional também podem ser afetadas caso optem por recolher CBS e, posteriormente, IBS fora do Simples.

Segundo a tributarista Ana Cláudia Utumi, do Utumi Advogados, empresas que atuam no modelo B2B podem enfrentar dilema.

Se permanecerem no recolhimento unificado, os clientes não poderão tomar crédito sobre os serviços contratados. Isso pode reduzir a competitividade desses prestadores.

“A situação cria um dilema para as empresas no Simples: adotar o regime geral pode ampliar a competitividade no B2B, mas só o IBS e a CBS vão ultrapassar muito qualquer valor que elas teriam que pagar no Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS)”, disse.

Aluguéis também podem elevar custos

Ana Cláudia Utumi também aponta que outros custos podem subir para empresas de serviços.

Um exemplo são os aluguéis, que hoje não pagam ICMS e ISS e passarão a ser alcançados pelo IVA.

“As empresas terão um aumento de custo de operação que muito provavelmente vai chegar no consumidor final”, afirmou.

Há divergência sobre impacto inflacionário

Nem todos os especialistas veem risco relevante de inflação em 2027.

Para Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), eventuais aumentos de custo no setor de serviços serão compensados por ganhos de eficiência.

“Teremos um aumento de produtividade, de crescimento econômico, diminuição de outros custos, como com o contencioso tributário e outros custos administrativos. Teremos um sistema tributário muito menos complexo e mais dinâmico”, afirmou.

Segundo ele, uma eventual inflação causada pela reforma não é preocupação para a IFI.

“Se houver, vai ser breve e rapidamente absorvida”, disse.

Choque inicial pode não ser imediato de compensar

Rafael Barros, do FGV Ibre, discorda da avaliação de que a acomodação será rápida.

Para ele, a simplificação e uniformização tributária devem reduzir preços no longo prazo, mas as decisões de realocação e ajuste das empresas não ocorrerão imediatamente.

“Então vai haver, sim, um choque inicial”, afirmou.

Com informações do Jota e UOL





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