O trilema que trava a economia no Brasil
O Brasil vive hoje como um carro superpotente preso num congestionamento interminável — o motor existe, a capacidade está lá, mas não consegue andar. Esse travamento tem três causas que se retroalimentam: juros altos, fragilidade fiscal e crescimento baixo.
O ponto de partida é o fiscal. O País gasta mais do que arrecada há anos, e o déficit nominal (incluindo pagamento de juros) já passa de 8% do Produto Interno Bruto (PIB). A dívida pública deve se aproximar de 84% do PIB no fim deste ano, um salto substancial em pouco tempo. Quando o governo insiste em gastar sem planejamento, o mercado exige juros maiores para financiamentos. E o Banco Central (BC) não tem alternativa — precisa manter a taxa Selic elevada para segurar as expectativas de inflação.
Os juros altos, portanto, são mais sintoma do que causa. Com o fiscal desancorado, o BC vira o bombeiro tentando evitar que o incêndio se espalhe. E o efeito na economia real é imediato: crédito caro, famílias gastando mais com juros do que com consumo, empresas adiando investimentos, aumento de pedidos de recuperação judicial e um varejo estagnado. O dado mais simbólico desse momento é que o gasto das famílias com serviço da dívida bateu recorde histórico. Isto é, o juro alto está corroendo o orçamento das pessoas.
Com juros elevados e incerteza fiscal, o investimento desaba. A taxa de investimento está em torno de 16% do PIB, muito abaixo do necessário para sustentar um crescimento robusto. E, sem investimento, não há aumento de produtividade, modernização tecnológica, expansão da capacidade produtiva ou geração de empregos de qualidade. O resultado é um círculo vicioso: o fiscal ruim gera juros altos, que derrubam o investimento, o crescimento diminui, e piora o fiscal.
E aqui está o ponto central: o que trava o crescimento brasileiro não é conjuntural, é estrutural. O País convive com baixa produtividade, um Estado caro e ineficiente, um sistema tributário complexo, insegurança jurídica e uma burocracia que sufoca principalmente pequenas e médias empresas. Não é coincidência que, desde 1980, o Brasil cresça menos de 1% ao ano enquanto o mundo cresce mais de 3%. Não é azar, são escolhas erradas.
Para destravar o País, não existe atalho. É preciso ancorar o fiscal, modernizar o Estado, simplificar o sistema tributário sem aumentar carga, estimular investimento privado com segurança jurídica, investir em produtividade e reduzir o custo Brasil. Sem essas medidas, qualquer crescimento será curto, frágil e dependente de ciclos externos.
Ao final, tudo resume-se em confiança. O investidor só investe se confiar. O empresário só contrata se confiar. O consumidor só gasta se confiar. E o Banco Central só corta juros se confiar. Confiança não se decreta, mas constrói-se. Com previsibilidade, responsabilidade fiscal, regras claras e reformas que sinalizem um país mais leve, mais simples e mais competitivo.
O trilema brasileiro não é uma sentença eterna. É um aviso. Se o Brasil quiser juros mais baixos, precisa arrumar o fiscal. Se quiser crescer mais, precisa investir. Se quiser investir mais, precisa reduzir incertezas e aumentar produtividade. Não existe mágica, existe escolha. E o Brasil precisa decidir se vai continuar empurrando problemas para depois ou se, finalmente, vai encarar o espelho e fazer o que precisa ser feito.