O Risco para a Governança e Ética


O Brasil vive uma contradição insustentável. Enquanto discutimos a modernização do sistema tributário, a digitalização dos processos fiscais e a adoção plena do IFRS 16, ainda presenciamos, nos bastidores corporativos, o uso persistente de práticas contábeis que beiram o amadorismo, a negligência ética e, em casos extremos, o risco de insolvência fraudulenta. Como executivo, CFO e conselheiro, observo com preocupação profunda que a “contabilidade criativa” não é apenas um erro técnico de interpretação de normas; é um verdadeiro câncer que corrói o valor de mercado de empresas promissoras, minando a confiança de investidores nacionais e internacionais.

A Falácia da Maquiagem Contábil e o Risco de Continuidade

É comum ouvir, em reuniões de conselho de empresas que enfrentam dificuldades financeiras, a frase de que “o ajuste contábil é apenas uma formalidade para não assustar o mercado”. Esta é a mentira que precede a insolvência e a descontinuidade do negócio. Precisamos defender que a governança fiduciária exige que o profissional contábil atue não como um executor de vontades de acionistas a curto prazo, mas como o guardião da realidade financeira da organização. Empresas que camuflam passivos em nome de resultados imediatos ou que operam no limite do risco fiscal estão, na prática, comprando uma passagem sem volta para o descrédito no mercado global.

A Era da Transparência Radical: O Fim do Jeitinho Corporativo

Em 2026, a tecnologia de cruzamento de dados, alimentada por inteligência artificial e processos de auditoria em tempo real, tornará praticamente impossível manter o “jeitinho” corporativo por muito tempo. Precisamos alertar que o mercado financeiro pune a opacidade com o encarecimento imediato do crédito e a fuga massiva de investimentos. A transparência radical, conceito que defende a abertura total, clara e irrestrita das informações financeiras ao conselho, aos comitês de auditoria e aos stakeholders, é a nova moeda de troca para quem deseja longevidade. Não se trata apenas de cumprir normas, mas de construir um alicerce de confiança que permita à empresa captar recursos com taxas competitivas e atrair talentos que buscam empresas pautadas pela ética.

A Responsabilidade do Gestor na Governança Contemporânea

A confusão entre o patrimônio pessoal dos sócios e o capital corporativo é o maior indicador de que uma estrutura de governança está prestes a colapsar. A responsabilidade do CFO moderno vai muito além da técnica apurada de lançamentos ou da entrega de obrigações acessórias; ela envolve a coragem inabalável de confrontar práticas que não condizem com a ética profissional. Um CFO de alta performance deve ser o primeiro a apontar a fragilidade do balanço, antecipando-se aos credores e aos órgãos reguladores.

Turnaround: Quando a Verdade Contábil se Torna o Ativo Principal

Em processos de reestruturação, ou Turnaround, a governança atua como o mecanismo cirúrgico que garante a sobrevivência do negócio. a profissionalização da gestão, marcada pela separação clara entre propriedade e controle, é o fator determinante para o sucesso em cenários de alta volatilidade econômica. O mercado financeiro internacional exige hoje uma clareza absoluta na estrutura de capital, o que só é possível através de uma governança madura e de relatórios de auditoria que espelhem, com precisão cirúrgica, a realidade do ativo. Quando um gestor decide adotar a transparência radical, ele transforma a fragilidade do balanço em uma história de recuperação que atrai capital qualificado.

A Ética como Vantagem Competitiva Perene

Muitos gestores ainda acreditam que a ética é um limitador de crescimento. Na verdade, essa é a maior vantagem competitiva que uma empresa pode possuir. Ao adotar padrões internacionais de conformidade e compliance, a empresa não apenas evita problemas com o Fisco, mas abre portas para mercados que exigem padrões globais de governança. A excelência dos controles internos, a transparência no fluxo de caixa e a clareza nas notas explicativas são sinais claros de que a empresa está sendo gerida por profissionais que respeitam o capital dos acionistas. Reitero que, no longo prazo, não existe empresa que sobreviva à falta de integridade, independentemente do tamanho do seu faturamento.

Desafios Estratégicos para o Próximo Ciclo

A recomendação para os gestores e profissionais contábeis é clara: o foco deve estar na gestão estratégica de riscos e na excelência absoluta dos controles internos. Precisamos destacar que a transparência radical é a única vantagem competitiva que resiste a crises econômicas. Para os executivos que buscam elevar a maturidade de seus negócios, o caminho exige disciplina na aplicação de processos, investimento contínuo em compliance e, acima de tudo, a convicção técnica de que a verdade dos dados contábeis é o ativo mais valioso de uma corporação. Não há atalhos quando se trata de reputação; uma vez perdida, a confiança é o ativo mais difícil de recuperar.

Conclusão: O Compromisso com a Verdade

O futuro pertence àqueles que não precisam recorrer a artifícios contábeis para sobreviver, mas àqueles que constroem balanços que resistem à luz da verdade. O Brasil que queremos, mais justo e eficiente, passa obrigatoriamente por uma contabilidade que espelhe a realidade. O convite é para que cada gestor, cada controlador e cada CFO assuma o seu papel: o de guardião do valor, o de defensor da transparência e o de promotor do desenvolvimento econômico sustentável. A contabilidade não é o fim, é o meio pelo qual a sociedade confia no empreendedorismo. Vamos, juntos, elevar o padrão da governança no Brasil.





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