O Marty Supreme sul-americano – 26/01/2026 – No Corre


Tem reduzido valor artístico “Marty Supreme”, filme que estreou nas salas de cinema paulistanas semana passada, produzido à feição para Timothée Chalamet levar finalmente seu Oscar –ficou pequeno para a concorrência, Wagner Moura incluído.

Mas o sujeito da vida “real” no qual o personagem de Timothée se inspira, o nova-iorquino Marty Reisman (1930-2012), era de fato bastante cinebiografável: figuraça, dotado de uma autoconfiança rara, algo escroque, foi multicampeão estadunidense de tênis de mesa e uma das personalidades mais populares desse esporte nos anos 1950.

Usar o esporte como metáfora de redenção é carne de vaca em Hollywood, mas “Marty Supreme” felizmente tenta evitar esse caminho, preterindo-o ao lado “wild” de Reisman, que aprendeu seu ofício na rua, jogando a dinheiro pela primeira vez aos 12 anos de idade.

Sua escola foi o Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, levado lá por um apostador. Com 14 anos, segundo sua autobiografia publicada nos anos 1970, ele já se sustentava com o esporte, jogando no Lawrence’s até horas impublicáveis da noite.

A outra escola, aquela dos livros, foi para o espaço.

Reisman desenvolveu à mesa de pingue-pongue habilidades histriônicas, circenses, que muito lhe ajudariam nos intervalos de exibições dos Harlem Globetrotters, com quem excursionou justamente nos anos de seu “prime”, entre 1949 e 1951. Em 1952, na Índia, favorito, ele perderia o título mundial para um azarão japonês, Hiroji Satoh, pioneiro no uso da raquete que se tornaria doravante dominante, com superfície de borracha.

Meu amigo portenho Hernán Reig, 55, é uma espécie de Reisman sul-americano. Embora não seja profissional do esporte, ele agarrou-se ao tênis de mesa com afinco, depois de encetar carreira errática pelas artes visuais, pelo fotojornalismo e pela música popular.

O pingue-pongue o levou a disputar jogos no Pará e no Paraguai e a manter regularmente, desde antes da pandemia, um encontro em Buenos Aires num centro cultural com bandas de música e partidas da sua modalidade.

Em São Paulo, apresentou-me uma cidade a mim desconhecida, levando-me a “picos” do esporte que ele descobriu. No clube Piratininga, a poucos metros do largo da Batata, em Pinheiros, vi dezenas de mesas ocupadas por uma pequena multidão de praticantes, algo que não deveria ser muito diferente, tirante o aspecto “hustler”, da Manhattan de Reisman.

Assim como Reisman, Hernán jamais teve pendores para a vida corporativa. Se muito, trabalhou no começo deste século na loja Objetos Encontrados, de um amigo seu em Palermo, em regime bastante flexível, época em que produzia ready mades visuais à maneira de Duchamp e os vendia ali.

Em certo momento do filme, Marty alega ter “propósito”, esse conceito apropriado de maneira sórdida pelas corporações. “Se você acha que isso é uma bênção, não é”, diz o personagem, dando a entender a seguir de que se trata quase de uma maldição, o destino já escrito de um herói de tragédia grega.

Certa vez em seu pequeno apartamento, no centro de Buenos Aires, Hernán começou a ensinar minhas duas filhas, então pequenas, a jogar pingue-pongue. A mesa era o próprio chão de madeira do “depto”. As raquetes eram como as de Hiroji.


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