o desafio da mudança e nossas crenças financeiras


Existe um pensamento que diz que você não ama uma pessoa, você ama aquilo que ela representa para você. Por mais dura que pareça, há uma verdade profunda escondida nela.

Quando nos apaixonamos, não enxergamos apenas quem está diante de nós. Enxergamos memórias futuras, expectativas, sonhos, segurança, admiração e pertencimento. Parte do amor nasce da pessoa. Outra parte nasce da história que construímos sobre ela.

Talvez seja por isso que algumas despedidas sejam tão dolorosas. Não perdemos apenas alguém. Perdemos a narrativa que sustentava uma parte da nossa identidade.

Mas esse fenômeno não acontece apenas nos relacionamentos. Ele está presente na política, nos investimentos, na religião. E praticamente em qualquer lugar onde existam crenças.

Em Sapiens, Yuval Harari argumenta que a grande força da humanidade foi sua capacidade de criar ficções compartilhadas. Nações, moedas, empresas, sistemas políticos e até conceitos como valor são construções coletivas que existem porque milhões de pessoas acreditam nelas simultaneamente.

O que raramente percebemos é que não nos conectamos apenas às ideias. Nos conectamos às tribos que essas ideias representam. Nietzsche observou que as convicções costumam ser inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras.

Talvez ambos estivessem descrevendo o mesmo fenômeno. A dificuldade não está em descobrir que uma ideia estava errada, a dificuldade está em admitir que passamos anos construindo nossa identidade sobre ela.

Quando alguém muda de opinião sobre política, raramente está apenas revisando fatos. Está correndo o risco de perder amigos, grupos, referências e o senso de pertencimento que aquela visão de mundo oferecia.

O mesmo acontece nos investimentos. Durante anos, investidores acreditaram que certas instituições eram sólidas demais para falhar. Em 2008, a quebra do banco de investimento americano Lehman Brothers destruiu essa ilusão. Não foi apenas uma crise financeira. Foi uma crise de crenças.

De forma semelhante, durante séculos, a maior parte da humanidade acreditou que o Sol girava em torno da Terra. Quando Galileu desafiou essa visão, o problema não era a astronomia. Era o colapso de uma estrutura intelectual que sustentava uma parte significativa da ordem social da época.

Toda grande transformação histórica exige o mesmo sacrifício. Abandonar uma explicação confortável em troca de uma realidade desconfortável. E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas permaneçam presas a ideias que já não fazem sentido. Não porque lhes faltam evidências, mas porque lhes falta disposição para enfrentar o vazio que surge quando uma crença morre.

A verdade é que raramente defendemos apenas uma ideia. Defendemos os anos que investimos nela. Defendemos as decisões que tomamos por causa dela. Defendemos a versão de nós mesmos que nasceu a partir dela. E é por isso que mudar de opinião pode ser uma das experiências mais dolorosas que existem.

Talvez estejamos assistindo a esse mesmo processo acontecer agora com a chegada da blockchain. Grande parte do mercado financeiro tradicional ainda resiste à ideia de que ativos, contratos e sistemas de liquidação possam funcionar de forma descentralizada. Não necessariamente porque a tecnologia seja incapaz de entregar valor, mas porque ela desafia estruturas, modelos de negócio e crenças construídas ao longo de décadas. Assim como ocorreu em outras revoluções tecnológicas, aceitar a mudança exige reconhecer que algumas certezas do passado podem não ser mais suficientes para explicar o futuro. E, para muitos participantes do mercado, esse é um custo psicológico muito maior do que simplesmente analisar uma nova tecnologia.

No fim, as maiores barreiras à transformação raramente são tecnológicas, econômicas ou intelectuais. Elas são emocionais. Porque toda inovação relevante exige que abandonemos alguma versão antiga de nós mesmos. E talvez a verdadeira medida de abertura mental não seja a capacidade de defender uma crença com convicção, mas a coragem de abandoná-la quando a realidade aponta em outra direção. Afinal, crescer não é acumular certezas. É aprender a sobreviver ao desconforto de vê-las desaparecer.

Por Vitor Delduque, Co-founder e CRO da Rise





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