Netflix fura bolha da Copa sem mostrar um gol – 27/06/2026 – Esporte
Muito antes do pontapé inicial da Copa do Mundo, a equipe de transmissão já estava escalada: na TV aberta, Globo e SBT; nos canais por assinatura, Sportv e Nsports; no Youtube, a artilharia da CazéTV, com todos os jogos disponíveis, muitos deles exclusivos.
Teve também um pouco de getv, via Globoplay, convocado pelo grupo Globo para a inglória tarefa de marcar o canal de Casimiro Miguel. E, nos streamings, Disney+ e Prime Video incluíram na grade a Cazé TV —para quem não está a fim de ir até a lonjura do Youtube.
E mesmo com tudo isso, e sem transmitir um golzinho, a Netflix conseguiu entrar na bolha da Copa. Seu principal trunfo é o programa diário de debate esportivo “The Rest Is Football”, comandado pelo inglês Gary Lineker, 65 —chuteira de ouro na Copa de 1986—, com a participação fixa de Alan Shearer, 55, e Micah Richards, 37, outros dois ex-jogadores do English Team.
O programa serve também como um respiro futebolístico para a cobertura habitual “com Neymar/sem Neymar” que assola dez a cada dez mesas-redondas brasileiras.
Lineker era o maior artilheiro da Inglaterra em Copas, com 10 gols, antes do início da competição de 2026 —foi igualado por Kane. Shearer brilhou no início da reformulada Premier League e é até hoje o principal goleador da competição, com 260 gols —à frente de Kane, que poderia desafiá-lo, mas se transferiu para o Bayern.
Já o ex-lateral Micah Richards se aposentou prematuramente com problemas contínuos no joelho. Em campo, fez sucesso no início da fase da fartura do Manchester City e integrou a equipe campeã na temporada 2011/12, ainda pré-Guardiola.
Além de ex-jogadores, o trio britânico (principalmente Lineker), tornou-se referência na comunicação esportiva, com passagens por programas de prestígio. A marca “The Rest Is…” pertence a Lineker, usada em bem-sucedidos podcasts.
No programa da Netflix, apresentado de um grande espaço com decoração industrial e cheio de adereços copeiros, com janela para a Times Square, eles discutem diariamente os principais resultados do dia que acabou de terminar e já avaliam o que deve ser destaque no dia seguinte.
Lineker é o cara descontraído, com humor tipicamente inglês; Shearer parece aquele cara carrancudo do pub que se solta depois do segundo gole; Richards é o cara mais extrovertido da turma, que talvez se comunique melhor com o público jovem, com camisas coloridas e movimentos espalhafatosos.
Os episódios de cerca de 45 minutos vão ao ar diariamente, às 2h, ainda no calor da rodada diária. Na manhã seguinte, já estão devidamente legendados —mas às vezes alguma coisa se perde na tradução.
Claro, com as pessoas envolvidas, a seleção inglesa ganha atualizações diárias, com repórter exclusivo para noticiar direto da concentração do English Team, mas tudo é muito dinâmico. A Escócia, que estava na chave do Brasil, também tem seu momento.
Lá como cá, há discussões em torno da convocação de Tuchel. Richards não se conforma com a ausência de Cole Palmer, astro do Chelsea e colega de João Pedro (seria o Chelsea o problema?), ou com a presença do veterano Jordan Henderson.
As discussões e comentários costumam ser sóbrios, ponderados e inteligentes. Todos parecem dominar a arte do plural.
Há convidados mais fixos que outros e, como estamos no mundo da Netflix, podem aparecer ao lado de boleiros um ou outro artista. Certo dia, estava lá o britânico Asa Butterfield, ator da nova série “Sem Salvação” —e torcedor do Arsenal, uhu—; em outro o convidado era o humorista Mo Gilligan, com stand-ups disponíveis no streaming e torcedor do Brasil (para agradar a noiva brasileira).
Niall Horan, ex-One Direction, também já deu as caras. Os visitantes costumam ser britânicos. Ao contrário dos artistas americanos em geral, os britânicos amam futebol.
Harry Maguire, zagueiro do Manchester United preterido por Thomas Tuchel para a Copa, e o ex-jogador Joe Cole são presenças constantes. Frank Lampard e o francês Patrick Vieira também estiveram por lá.
Os apresentadores apostam mais fichas na França como principal seleção do torneio, com Espanha como desafiante e Inglaterra correndo por fora. Já Joe Cole ainda acredita no triunfo do Brasil, quem diria.
No episódio após a vitória do Brasil contra Haiti, os presentes ameaçaram elogiar a seleção. Mas quando Lineker perguntou o que Vieira achava das chances da seleção de Ancelotti, ele foi enfático.
“Foram só dois jogos até agora. Mas acho que eles estão atrás da Argentina, atrás da França, atrás da Inglaterra. Não acho que eles tenham o suficiente para ganhar a Copa do Mundo”, comentou o francês campeão de 1998, contra o Brasil na final.
Joe Cole ainda tentou defender a seleção, apontando a experiência da seleção, com média de idade com cerca de 30 anos. “Com as pausas para hidratação, acho que ter um ótimo técnico será extremamente importante. E acho que Ancelotti, nessas pausas, vê algo e faz ajustes”, acrescentou, apontando ainda o talento de Vinicius Junior.
“Acho que, com exceção do Vinicius, falta velocidade, potência, especialmente se perderem o Raphinha. Acho que tem alguma coisa que não está entrosada ainda. Pode ser que venha depois, mas não estou convencido pelos dois primeiros jogos”, triplicou Vieira.
Há tempo para algumas ótimas histórias do passado. Lineker relembra a famosa e embaraçosa história de quando teve um problema de diarreia antes do jogo de estreia na Copa de 1990, contra a Irlanda. No segundo tempo, com os ingleses vencendo por 1 a 0 (gol dele), um carrinho na lateral trouxe a questão da diarreia para o gramado. Ele brinca que ninguém mais o marcava de perto porque ele fedia.
Também não há a tentativa de aumentar o torneio além do que é. Em um episódio, Shearer entrou ao vivo de Houston, onde foi para comentar o duelo entre Holanda e Suécia. O ex-jogador confessou que o clima de Copa na cidade beirava o zero, a não ser pelos torcedores europeus que chegavam para o jogo. Em sua opinião, pelo menos naquele dia, Houston tinha um problema.
No fim de cada episódio, como num típico pub, um convidado vai até a área de dardos para participar de uma competição entre eles. No melhor estilo inglês.