Na Copa do Mundo, Brasil precisa de mais futebol e samba – 15/06/2026 – Esporte


Ler jornal é prática que cria sincronia entre idioma, história e destino em comum com outros indivíduos de uma nação. Essa é a ideia central de “Comunidades Imaginadas”, livro do historiador inglês Benedict Anderson de 1983. No Brasil, a comunidade imaginada não é sentida só na leitura dos jornais, mas também é exercida em nosso fascínio pelo futebol, esporte que é patrimônio nacional.

Nelson Rodrigues cravou nos anos 1950 que somos “a pátria de chuteiras”. Acrescentaria a isso o detalhe das chuteiras verde-amarelas gingarem ao som do batuque do samba e uma boa conversa jogada fora. É em meio a uma boa partida de futebol, na apreciação do samba e no prazer da resenha, a conversa fiada que traz o riso fácil e a diversão jocosa, que nos sentimos mais tupiniquinis.

Boleiros são ótimos resenheiros. Vampeta talvez seja o maior resenheiro da história do futebol contemporâneo. Mas foi Adriano, o Imperador, que conseguiu resenhar de forma “sociologicamente futebolística” a primeira partida da seleção nesta Copa.

“A gente já estava perfilando para entrar no campo, eu dei a ordem. Ninguém entendeu nada, mas todo mundo voltou. Entramos no vestiário de novo. Fizemos uma roda. Ombro com ombro. Braços entrelaçados. Puxei a conversa. ‘Pessoal, isso aqui não tá legal. Que porra é essa? Não teve a nossa música hoje no vestiário. Não fizemos o nosso pagode no ônibus. Cadê a resenha? Ninguém fez brincadeira. Porra, assim não dá não. Vamos perder pra nós mesmos?’”

Foi assim que o atacante da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, deu uma chamada no time do Flamengo em jogo do Brasileiro de 2009, contra o Atlético-MG, no Mineirão. A história está no livro “Adriano: meu medo maior”, autoria do ex-jogador com o jornalista Ulisses Neto. Após uma preleção que mais pareceu um misto de palestra de coach empresarial com sermão de pastor evangélico, o ídolo do Milan fechou a gritaria bem à sua maneira. “Mas é o seguinte. Se nada disso der certo, se a bola estiver quadrada, a jogada estiver errada, faz o seguinte: dá em mim. Vocês têm o Imperador do seu lado, poraaaaa.”

Não tivemos o Imperador na seleção no jogo de sábado, mas um Vini Junior que chamou a responsa para si e fez um golaço. No segundo tempo, o Brasil jogou melhor, mas sem convencer. Ficamos felizes ao final com o empate, mas com a sensação de que faltou aquele futebol entrosado, em ritmo de samba e resenha. Ninguém viu aquela coletividade que um samba bem tocado no pagode e uma boa resenha promovem.

Essa receita serviu bem ao Mengão do Imperador em 2009. Venceram o jogo contra o Atlético Mineiro por 3 x 1, com um gol olímpico de Petković, um do volante Maldonado e o terceiro de Adriano, Imperador. Na sequência de jogos, o Flamengo subiu na tabela e faturou o Brasileiro. Adriano resumiu bem sua participação: “Não vou mentir para vocês, porque eu não sou disso. Continuei tomando o meu Danone. Evitei os regenerativos, mas treinei como um cavalo. Eu não fazia corpo mole, ao contrário do que dizem por aí. Quando eu estava lá, era de verdade”.

Precisamos que nosso professor italiano chame esse elenco bilionário para uma pizza e promova uma palestra no melhor estilo Adriano. Com sua educação e elegância presentes na sua fala mansa e naquele terno e gravata que fariam inveja ao Vanderlei Luxemburgo dos anos 1990, o chefe Carlo Ancelotti vai dar a letra: “Rapaziada, mais futebol, samba e resenha nesta Copa. Treinem como cavalos e tomem o seu Danone”. Pois, como já cantou o filósofo-cantor flamenguista Jorge Ben, “É Cosa Nostra”.



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