Kansas City gasta milhões em transporte para a Copa – 12/05/2026 – Esporte
Centenas de milhares de torcedores de futebol devem desembarcar em Kansas City, Missouri, no próximo mês para a Copa do Mundo, muitos vindos de países onde as pessoas usam ônibus e trens rotineiramente.
Seus anfitriões do Meio-Oeste estão prontos para impressionar com costela defumada, jazz e novas instalações de futebol. Mas as autoridades sabiam que o limitado sistema de transporte público de Kansas City não iria impressionar os visitantes da Europa, da América do Sul e de outros lugares.
Então construíram um novo.
É temporário, apenas para a Copa do Mundo. Mas dinheiro público está cobrindo parte da conta para transportar os torcedores visitantes por uma região difusa e centrada no automóvel que abrange dois estados, com um sistema de transporte temporário sem precedentes na história moderna de Kansas City.
A Fifa (Federação Internacional de Futebol), entidade que governa o futebol, que deve faturar bilhões com o torneio, não paga pelas extensas melhorias em transporte, segurança e infraestrutura frequentemente necessárias para sediar jogos da Copa do Mundo.
Isso significa que cidades, estados e empresas patrocinadoras estão gastando milhões com os jogos, com as autoridades contando com retornos econômicos para justificar o custo. A maioria das 11 regiões-sede nos Estados Unidos inicialmente abraçou o evento, aceitando seu alto preço como o custo de estar sob os holofotes globais.
As cidades-sede investiram pesado na expansão do serviço ferroviário, na compra de equipamentos policiais e na elaboração de planos de trânsito para o espetáculo de futebol de cinco semanas, frequentemente em meio à incerteza sobre o reembolso. Mas, nas últimas semanas, à medida que a iminente interrupção da vida cotidiana se tornou evidente, houve mais resistência.
Os passageiros de Nova York enfrentarão o fechamento parcial da Pennsylvania Station nos dias em que houver jogos no MetLife Stadium, na vizinha East Rutherford, Nova Jersey, onde o estacionamento será severamente restrito. Os custos crescentes de segurança levaram a NJ Transit a inicialmente estabelecer tarifas de trem de ida e volta em US$ 150 (R$ 734) para os jogos da Copa do Mundo, enquanto Boston está cobrando US$ 95 ( 465) por ônibus expressos.
“Como tenho dito repetidamente, a Fifa deveria cobrir o custo de transportar seus torcedores”, disse a governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, sobre as tarifas altas, que foram reduzidas na semana passada para US$ 105 (R$ 514).
Outros locais hesitaram em arcar com os custos. Autoridades municipais em Foxborough, Massachusetts, o subúrbio de Boston que sediará jogos, se recusaram a pagar a conta da segurança, criando um impasse que só foi resolvido quando os proprietários do estádio e o comitê organizador local intervieram para cobrir os custos.
Autoridades e moradores de Kansas City, a região metropolitana menos populosa dos Estados Unidos a sediar jogos, parecem ter abraçado a oportunidade —e aceitado o custo de satisfazer as necessidades de transporte e outras demandas decorrentes do evento. Os estados de Kansas e Missouri contribuíram com um total combinado de US$ 70,5 milhões (R$ 345 milhões) para o comitê organizador. O governo local de Kansas City, Missouri, adicionou cerca de US$ 15 milhões (R$ 73,5 milhões).
Seis jogos da Copa do Mundo serão disputados no venerado, porém já antigo, Estádio Arrowhead, em Kansas City, e quatro seleções, incluindo algumas das maiores do esporte, escolheram a região como base durante o torneio. Há preocupações, no entanto, sobre se o aumento no número de visitantes corresponderá às expectativas. Em um relatório publicado na semana passada pela American Hotel & Lodging Association, de 85% a 90% dos hotéis pesquisados na região de Kansas City relataram reservas para a Copa do Mundo abaixo do esperado, a pior taxa entre as cidades-sede americanas.
O comitê organizador local vai disponibilizar uma frota de 220 ônibus para transportar espectadores do aeroporto ao centro da cidade, e depois do centro para hotéis, distritos de entretenimento e outros pontos no Missouri e Kansas. Os preços das passagens permanecerão muito mais baixos do que em Nova Jersey ou Massachusetts.
Nos subúrbios do Kansas, governos locais estão gastando centenas de milhares de dólares em sua própria linha de ônibus temporária. Até uma extensão há muito planejada do sistema de bonde da cidade entrará na jogada.
A Copa do Mundo será de longe o maior evento da história da cidade, dizem as autoridades, e uma chance de apresentar a região, com cerca de 2,3 milhões de pessoas, ao mundo. Os organizadores gostam de comparar os seis jogos planejados ali a seis Super Bowls —um evento esportivo que Kansas City já venceu, mas nunca sediou.
“Acho que sempre tivemos um certo ar de azarões, por sermos rotulados como uma cidade de passagem ou uma cidade pequena”, disse Mike Kelly, presidente do Conselho de Comissários do subúrbio de Johnson County, no Kansas, e membro do comitê organizador da Copa do Mundo. “Nos orgulhamos do que está acontecendo aqui, então acho que muita gente está animada para mostrar isso.”
Além das frotas de ônibus, há despesas menores, como cones de trânsito e balizadores para o escritório de xerife local, e cerca de US$ 116 mil (R$ 568 mil) para um trailer de vigilância móvel e um sistema de barreiras de trânsito no arborizado subúrbio de Prairie Village, no Kansas.
A FEMA (Agência Federal de Gerenciamento de Emergências) reservou US$ 625 milhões (R$ 3 bilhões) para subsídios de segurança nas cidades-sede dos Estados Unidos, com cerca de US$ 59,5 milhões (R$ 291 milhões) destinados à região de Kansas City. Autoridades estaduais do Missouri estão gerenciando esses fundos federais, e os pedidos de reembolso serão encaminhados por meio delas. A FEMA também concedeu ao Missouri US$ 14 milhões (R$ 68 milhões) para combater potenciais ameaças de drones.
Alguns gastos em Kansas City enfrentaram resistência. Depois que o Conselho Municipal aprovou mais de US$ 20 milhões (R$ 98 milhões) no ano passado para construir uma prisão modular, alguns moradores protestaram contra a instalação e questionaram o que ela dizia sobre a cidade.
“Acho que muitas pessoas diriam que, com base nas prioridades de financiamento da cidade, eles se preocupam mais com eventos esportivos do que com seus cidadãos”, disse Amaia Cook, diretora executiva da Decarcerate KC, um grupo que busca mudanças nas políticas de justiça criminal.
Sherae Honeycutt, porta-voz da cidade, disse que “o propósito deste trabalho é mais amplo do que o evento”, e que a prisão “melhorará como os detentos cumprem suas penas sob nossa custódia”. Ela disse que a cidade esperava começar a usar a instalação em 1º de junho, cerca de duas semanas antes de Argélia e Argentina se encontrarem no primeiro jogo da Copa do Mundo em Kansas City.
Outras cidades dos Estados Unidos, mesmo aquelas com experiência em sediar jogos do tamanho do Super Bowl, também gastaram pesado em infraestrutura para a Copa do Mundo. Houston está plantando árvores e melhorando trilhas. Autoridades do sistema de transporte de Atlanta planejam ter trens adicionais e um novo sistema de pagamento em funcionamento antes do torneio.
Nenhuma das cidades-sede dos Estados Unidos está construindo novos estádios para o torneio, o que torna muito mais provável que recuperem seus investimentos na Copa do Mundo. Mas economistas do esporte dizem que os impactos econômicos projetados de megaeventos como a Copa do Mundo são frequentemente exagerados.
Victor Matheson, professor do College of the Holy Cross que estuda a economia de grandes eventos esportivos, disse que as cidades-sede podem esperar ver um modesto impulso econômico, mas não um boom que mude trajetórias.
“Estamos falando de um saldo positivo, mas não um saldo positivo para todos”, disse Matheson, que planeja assistir a um dos jogos em Kansas City. “E certamente não é um saldo positivo tão grande que justifique as cidades se mobilizarem para arcar com todas as despesas da Fifa.”