João Fonseca aconteceu. Que aconteça mais quatro vezes – 29/05/2026 – Esporte


“Aconteceu. ” Desse modo, em uma palavra, o narrador Renan do Couto, da ESPN, registou a vitória épica de João Fonseca, 19, sobre Novak Djokovic, 39, em Roland Garros, um dos quatro Grand Slams do tênis, em uma partida emocionante, de cinco sets, que começou na tarde e acabou na noite parisiense.

Épica porque foi de virada, depois de desvantagem de 2 sets a 0, em jogo exaustivo de quase cinco horas de duração. Épica porque o adversário é considerado um dos melhores, se não o melhor, tenista da história.

O sérvio Djokovic tem 24 títulos de Grand Slams (3 em Roland Garros, 10 no Aberto da Austrália, 7 em Wimbledon, 4 no Aberto dos EUA). Ninguém ganhou tantos torneios de primeiríssima linha, nem o espanhol Rafael Nadal (22), nem o suíço Roger Federer (20).

Escrevi nesta Folha, nesta sexta-feira (29), um texto sobre a Copa do Mundo de 1970 em que houve citação ao destemido João Saldanha, técnico que batia de frente com a ditadura e classificou o Brasil para o Mundial do México.

Nesta mesma sexta, digo que Fonseca é o novo João Sem Medo do nosso país. Em nenhum momento do duelo, diante de Djoko papa-títulos –mais de cem na carreira, o primeiro quando o carioca nem tinha nascido–, ele tremeu ou se abateu, mesmo em situação de reação impensável.

Cabeça sempre erguida, jogou ponto após ponto, game após game, confiando na sua juventude. Partida prolongada não era mau negócio. A cada game a mais, a cada set a mais, era nítido o desgaste físico do veterano Novak, 20 anos mais velho.

Não teve jeito. No mesmo saibro da quadra Philippe Chatrier em que consagrou-se quatro vezes (os três títulos mais o ouro olímpico em 2024), o gigante de 1,88 m caiu. (Leio que Fonseca tem a mesma altura e peso similar, 82 kg x 81 kg; curiosamente, pela TV, o sérvio parece mais alto e mais magro que o brasileiro.)

Lembrou-me muito a época de Gustavo Kuerten, no fim dos anos 1990 e começo dos 2000, o nosso tricampeão de Roland Garros. O Brasil acordava cedo, ou dormia tarde, para ver o catarinense ganhar dos grandes nomes da época –os norte-americanos Andre Agassi e Pete Sampras foram vítimas.

Não sou um especialista em tênis, porém, puxando pela memória, o “forehand” (batida de direita) de Guga tinha um quê de deficiência. O de Fonseca, destro como o compatriota, não. Que potência, que precisão. Talvez o “backhand” (golpe de esquerda) de Guga, assombroso na paralela, fosse superior, mas pouca coisa –de Fonseca é admirável. E as “deixadinhas” do João Coragem? Mortais, exatamente como as do Manezinho da llha.

Não se pode ignorar o saque de Fonseca, uma paulada que supera os 200 km/h. No set derradeiro, Djoko ganhava o game por 40/30. Um ponto a mais, fecharia e empataria em 6/6, estendendo o duelo. O braço forte e a pontaria certeira de João não deixaram. Três “aces” (saques sem defesa) seguidos, algo tão difícil como improvável em confronto desse nível. “Game, set, match.” Oitavas de final em breve.

“Estou arrepiado”, disse Fonseca depois da partida. Muitos brasileiros devem ter ficado do mesmo jeito, pois foi mesmo uma vitória de arrepiar. Mas nada de lágrimas ou de sorrisos efusivos, como poderia esperar-se de um brasileiro. Quando ganhamos, choramos rindo, recorrentemente.

Não com João. Serenidade. Altivez. Alegria contida, deixando-a irromper nas cadeiras da quadra central de Roland Garros, onde brasileiros, de verde e amarelo ou não, vibraram, assim como familiares do João. Sua mãe, Roberta, fazia aniversário neste dia 29. Que presente!

Será? Será que, a cada dia mais intrépido, Fonseca conquistará o Grand Slam francês aos 19, antes mesmo de Kuerten, que tinha 20 em 1997 ao superar na decisão o espanhol Sergi Bruguera?

Depois de eliminar Djokovic, dá sim para ter a esperança engrandecida. Pode não ocorrer, o tênis conta com tremendos jogadores. Só que, depois desta sexta, com um quase quarentão eliminado, ter mais experiência, então trunfo dos concorrentes, não significará mais nada.

Jogue, João. Com a cara, a capacidade e a coragem. Você fez acontecer. Faça mais quatro vezes.



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