Japão encara Brasil sem precisar de um milagre nos EUA – 27/06/2026 – Esporte
Brasil e Japão vão se enfrentar na fase final de uma Copa do Mundo, e você não será chamado de louco se jogar suas fichas na formação asiática. Sim, o favorito nas casas de aposta é o time verde-amarelo, pentacampeão, porém a possibilidade de um resultado diferente está muito longe de ser vista como uma aberração, algo absolutamente imprevisível.
Em 1996, foi assim, uma zebra tratada como hedionda em terras brasileiras, milagrosa em ilhas nipônicas. Na primeira rodada dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em jogo realizado em Miami e decidido em uma trombada do goleiro Dida com o zagueiro Aldair, o meio-campista Teruyoshi Ito balançou a desprotegida rede para definir o 1 a 0.
Ainda que sem grandes consequências práticas no torneio –o Japão caiu na fase inicial, o Brasil levou a medalha de bronze–, a partida se tornou um marco para um futebol em desenvolvimento. Foi para os japoneses o “Miami no Kiseki”, o “milagre de Miami”, obtido contra os tetracampeões Aldair e Bebeto e os futuros pentacampeões Roberto Carlos, Juninho Paulista, Rivaldo e Ronaldo.
Trinta anos depois, as equipes vão se reencontrar nos Estados Unidos, desta vez em Houston e sem restrições de idade –na Olimpíada, são permitidos apenas três atletas acima de 23 anos de cada lado. Na próxima segunda-feira (29), no NGR Stadium, a hipótese de um triunfo nipônico não parece necessariamente atrelada a uma excepcional intervenção divina.
“Será difícil, mas acho que, fazendo bem o nosso jogo, podemos vencer o Brasil”, disse o atacante Maeda, sereno, sem nenhum falso arroubo de otimismo. “Acho que está 50% a 50%. No último jogo com o Brasil, mostramos nossas qualidades. Respeitamos enormemente o Brasil, mas está claro que também temos a possibilidade de ganhar”, acrescentou o treinador Hajime Moriyasu.
Esse último jogo com o Brasil, uma vitória de virada por 3 a 2, não faz muito tempo. Foi em outubro do ano passado, em Tóquio. Enquanto Carlo Ancelotti tateava possibilidades –o goleiro escalado foi Hugo, com a linha de defesa formada por Paulo Henrique, Fabrício Bruno, Lucas Beraldo e Carlos Augusto, e nenhum dos cinco está na Copa–, o Japão exibia sua consistência.
Moriyasu assumiu a equipe faz oito anos, após a Copa de 2018 –na qual já estava na comissão técnica, como auxiliar. Ele também trabalhou na seleção olímpica e conhece muito bem a geração que tenta ser a primeira do país a vencer um confronto de mata-mata do Mundial.
A situação é bem diferente da vivida por Carlo Ancelotti, que chegou ao Brasil há pouco mais de um ano, como o quarto comandante em um ciclo caótico para 2026. Até mesmo durante a Copa o italiano vem fazendo testes, como a malsucedida tentativa com o centroavante Igor Thiago na estreia, contra Marrocos.
O Japão exibe estabilidade bem maior, inclusive do ponto de vista tático. Ainda que goste de revezar algumas peças e esteja enfrentando problemas de lesão, Moriyasu adota sempre um 3-4-2-1, com alas de vocação ofensiva.
Um deles é o hábil Nakamura, que atua pela esquerda, mas no Reims, da França, é muitas vezes atacante. O time tem outros atletas bem estabelecidos no futebol europeu, caso do meio-campista Kamada, do inglês Crystal Palace, e do atacante Ueda, artilheiro do último Campeonato Holandês com a camisa do Feyenoord.
A equipe já fez barulho em 2022, no Qatar. Bateu Alemanha e Espanha na fase de grupos antes de perder nos pênaltis para a Croácia –que seria algoz do Brasil. De lá para cá, viveu um momento ruim com a derrota para o Irã nas quartas de final da Copa da Ásia, em 2023, porém teve uma campanha tranquila nas Eliminatórias –foi a primeira classificada ao Mundial– e chegou aos Estados Unidos em ótima sequência.
A formação japonesa perdeu apenas um de seus últimos 16 jogos. Nessa série, tornou-se a primeira seleção a derrotar o Brasil após sair em desvantagem de 2 a 0 e superou também a Inglaterra, no estádio de Wembley, em Londres, por 1 a 0.
Na Copa, os comandados de Moriyasu empataram por 2 a 2 com a Holanda, fizeram 4 a 0 na Tunísia e asseguraram a segunda colocação do Grupo F com um empate por 1 a 1 com a Suécia. Mostraram nessas partidas disciplina tática, boas dinâmicas de construção pelos lados do campo, com seus alas e meias, e dificuldade na marcação de jogadas aéreas.
Os lances pelo alto podem ser chave para o Brasil, que é o favorito, mas não como foi em confrontos anteriores. Com significativa participação do ídolo brasileiro Zico nos anos 90 e na virada do século, como jogador e treinador, o futebol japonês cresceu. A liga nacional se tornou relevante, e a seleção já chegou quatro vezes ao mata-mata da Copa do Mundo. Agora, tenta dar o próximo passo.
A tarefa é difícil. No entanto, em Houston, o sólido Japão não precisa de um milagre como o de Miami.