Itália luta para não evitar ausência em terceira Copa – 25/03/2026 – Esporte
A imagem de Fabio Cannavaro erguendo a taça da Copa do Mundo de 2006 sintetizava uma Itália no auge, campeã mundial e dona do melhor jogador do planeta, vencedor dos prêmios da Fifa e da Bola de Ouro da revista France Football, depois de derrotar justamente a França na decisão por pênaltis.
Capitão da última versão que merece a alcunha de “squadra azzurra”, como os jornais italianos gostam de se referir à seleção nacional, o jogador à época na Juventus —contratado pelo Real Madrid logo depois do Mundial— simbolizava a identidade italiana, com defesa organizada, aplicação tática e jogo controlado.
Duas décadas depois, a Itália é quase irreconhecível atualmente. Nesta quarta-feira (25), a equipe liderada pelo técnico Gennaro Gattuso, ex-jogador do Milan e campeão do mundo ao lado de Cannavaro, luta para evitar o prolongamento de uma agonia que, ainda sem que os italianos soubessem, teve início em 2014, na última aparição do país em uma Copa do Mundo.
Ausente dos Mundiais de 2018 e 2022, a Itália está novamente na repescagem tentando evitar o fiasco de não conseguir se classificar para a ampliada Copa do Mundo de 2026, agora com 48 seleções.
O primeiro desafio é passar pela Irlanda do Norte, a partir das 16h45 (de Brasília), no estádio Atleti Azzurri d’Italia, em Bergamo. Quem passar encara no dia 31 o vencedor do confronto entre País de Gales e Bósnia e Herzegovina, que acontece no Cardiff City Stadium, em Cardiff, capital galesa. Só um deles vai à Copa.
Em 2018, a Itália caiu na repescagem diante da Suécia. Depois, em 2022, foi surpreendida pela Macedônia do Norte.
Para quem viveu de perto o auge do futebol italiano, os fracassos recentes não são obra do acaso, mas resultado de mudanças estruturais que redesenharam o futebol europeu, especialmente o Campeonato Italiano, com consequências diretas na seleção do país.
Campeão da antiga Copa da Uefa (atual Liga Europa) na temporada 1997/98 pela Inter de Milão, Zé Elias vê nessa transformação um dos principais fatores para a queda de protagonismo da elite italiana.
Segundo ele, no passado, havia um limite mais rígido de atletas estrangeiros, o que obrigava os italianos a atuarem em alto nível e formava uma base sólida nos clubes. “Todos os clubes tinham uma base forte. Aí, entravam quatro, cinco estrangeiros no máximo, que elevavam ainda mais o nível”, afirmou à Folha.
A partir de 1995, esse cenário mudou. A abertura para estrangeiros se ampliou —especialmente após o Caso Bosman, que permitiu a livre circulação de jogadores da União Europeia— e alterou o perfil da liga. “Teve época em que a Inter foi campeã sem ter um italiano em campo. Isso impacta diretamente a formação”, disse o ex- volante, atualmente comentarista dos canais ESPN.
Para o ex-jogador, a menor presença de jogadores locais reduz o desenvolvimento na base e explica a ausência de grandes nomes formados “em casa” no futebol italiano.
Se a última Itália campeã do mundo, há 20 anos, tinha o Milan, a Inter de Milão e a Juventus como base de seu elenco, será mais dificil reproduzir isso agora justamente pela perfil dos clubes.
De acordo com dados do site Ogol, especializado em dados estatísticos do futebol mundial, os elencos atuais das três principais equipes da Itália são formados, em sua maioria, por estrangeiros.
Com 33 jogadores em seu grupo, a Juventus tem 13 italianos (39,4%). No Milan, a presença é ainda menor, com nove italianos (30%) de um total de 30 jogadores. Com mais opções em seu plantel, a Inter de Milão é o clube que mais se aproxima de um equilíbrio, mas ainda com maior presença estrangeira. São 17 atletas da Itália (43,6%) e 22 do exterior.
Para Zé Elias, isso afeta a identidade da seleção italiana. “Você não tem mais aquela identidade clara. O jogador italiano vai para outras ligas, absorve outros estilos, e isso se reflete na seleção”, disse.
“Hoje você ainda consegue ver identidade na Espanha, um pouco na França. Na Itália é mais difícil. O time continua competitivo taticamente, faz o que o treinador pede, mas falta qualidade, personalidade nos grandes jogos”, acrescenta.
Regastar essa identidade foi a missão que Gattuso assumiu em maio de 2025, quando foi contratado para o lugar de Luciano Spalleti, demitido após uma derrota por 3 a 0 para a Noruega.
Com pouco mais de 12 anos de carreira como treinador, mas já com passagens pelo banco de reservas de equipes como Milan, Napoli e Valencia, o treinador de 48 anos encara o jogo desta quinta-feira, contra a Irlanda do Norte, como o maior desafio que já enfrentou.
“Ainda sou jovem como treinador, mas tenho muito pelo que lutar. Este é o jogo mais importante da minha carreira. Sinto como se tivesse um país nas costas”, disse.