Fora da Copa, Alemanha disseca fracasso e seu técnico – 30/06/2026 – Esporte


Friedrich Merz, premiê da Alemanha, escreveu no X que a o país tinha orgulho de seus jogadores. “Que jogo!” O tabloide Bild, o jornal mais popular e espécie de termômetro do humor do país, perguntou a “qual jogo” o primeiro-ministro teria assistido.

A eliminação nos pênaltis para o Paraguai, já na madrugada europeia, fez a Alemanha acordar de ressaca nesta terça-feira (30). Termos como “vexame” e “fiasco” surgiram em inúmeros comentários, mas o tom geral das críticas não versava sobre o tropeço diante de um adversário com evidentes limitações.

A constatação maior era a de que não existe mais aquela potência mundial, o time que fez Gary Lineker certa vez dizer que futebol é um esporte de 11 contra 11 que, no fim, os alemães vencem. “Alemanha, país do futebol: Foi assim um dia”, escreveu o Frankfurt Allgemeine Zeitung.

É a terceira eliminação precoce da seleção alemã em Copas depois da última glória, o título sobre a Argentina na final de 2014. O narrador da ZDF, a emissora pública alemã, mais de uma vez lembrou do Maracanã durante a partida. Há 12 anos, afinal, um gol no segundo tempo da prorrogação de Mario Götze deu o quarto título mundial ao país.

Em Boston, o roteiro nem de longe se repetiu. O gol de Jonathan Tah foi anulado pelo VAR no tempo extra, decisão contestada pelos analistas de arbitragem, mas nem por isso usada como atenuante nos comentários. A virada nos descontos contra a Costa do Marfim, na fase de grupos, já era uma memória distante; a festa no Rio, então, uma reminiscência.

“Não estamos entre os melhores do mundo”, declarou Julian Nagelsmann, o jovem técnico da equipe após a partida. Boa parte da imprensa entendeu que ele tentava empurrar a conta para os jogos, ainda mais depois de dizer que estava disposto a continuar à frente da seleção.

A resposta chegou na forma de detalhadas contabilidades de erros cometidos pelo treinador desde antes do torneio. “O que nunca havia acontecido em 80 anos está ocorrendo agora pela terceira vez consecutiva”, observou o Die Zeit.

Gerações de futebolistas alemães também não pouparam Nagelsmann, 38, dono de uma carreira meteórica em clubes antes de chegar à seleção. “A forma como fomos eliminados hoje é devastadora”, disse Jürgen Klinsmann. Para o ex-atacante e condutor do time no Mundial de 2006, Nagelsmann colocou o futebol alemão “em um buraco enorme”.

“Qual deveria ser o próximo passo? Acredito que, quando Julian Nagelsmann ouve uma opinião externa, ele age de forma diferente por princípio. E é isso, em última análise, que eu não gosto em sua liderança”, disse Lothar Mathäus, campeão em 1990.

O último grande líbero do futebol alemão também não poupou os jogadores. Comentarista na Copa, disse ter informações de disputas no grupo, relacionadas à presença de parentes e a outros privilégios concedidos de maneira desigual pelos cartolas. “A responsabilidade é nossa”, havia declarado de qualquer forma, horas antes, o capitão da equipe, Joshua Kimmich.

Também trabalhando atrás de um microfone no Mundial, Jürgen Klopp, ex-Liverpool e hoje executivo global de futebol da Red Bull, desviou da pergunta sobre um eventual futuro à frente da Alemanha. “Entendo que, quando se discute o cargo de técnico da seleção, meu nome é mencionado de alguma forma. Mas não é o momento certo para falar sobre isso.”

“Quero continuar, se me quiserem”, disse Nagelsmann, ignorando a onda de reclamações. Rudi Völler, outro campeão de 1990 e hoje diretor esportivo da Federação Alemã, se disse a favor da continuidade. Movimento natural, já que a contratação de Nagelsmann em 2023 foi ideia sua. “Sei que, depois de um revés como esse, muitas pessoas não vão entender, mas continuo convencido de que ele é um técnico de alto nível.”

Merz foi um dos que entenderam. Em meio a tantas reações, voltou ao X para dizer que “quem ostenta a águia no peito merece nosso apoio, não nossa zombaria.”

Quem preferiu economizar nas palavras foi o goleiro Manuel Neuer, 40, que viveu seu canto do cisne defendendo um dos tiros paraguaios na cobrança de pênaltis. “Sim”, respondeu brevemente o goleiro, quando perguntado se aquele havia sido seu último jogo da seleção. Manu, como é chamado carinhosamente no país, será lembrado, contudo, por fazer parte do time de 2014, daquela Alemanha que, para muitos, não existe mais.



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