Flamengo: perder sem ser derrotado – 17/12/2025 – Marcelo Bechler
No meio do ano, o Flamengo enfrentou o Bayern de Munique em um jogo de muitos erros, mas com o time brasileiro caindo de cabeça erguida. O orgulho de seus torcedores virou motivo de chacota por parte dos rivais. O “troféu de igual para igual” me parecia mais inveja do que qualquer outra coisa. Pois cinco meses depois, Filipe Luís apostou mais pela prudência do que pelo caos e o Flamengo olhou nos olhos da equipe que dominou a Europa nos últimos meses.
Perdeu, sem ser derrotado. Suportou duas horas de PSG, evitando que os franceses fizessem boas transições no primeiro tempo. Na etapa final, apostou por Pedro tirando os zagueiros adversários da área para abrir espaço para os companheiros até empatar. Fechou bem a área nos minutos finais e ainda teve chances com Bruno Henrique e o próprio Pedro.
O time brasileiro teve ótimas atuações de Varela contra Kvaratskhelia e depois Barcola, dos Leos sem se distrair com as mudanças de posições dos atacantes, Pulgar e Plata leram sempre bem as subidas de Nuno Mendes. Depois De La Cruz manteve um bom nível no meio-campo. Rossi se mostrou sempre inseguro, o único que destoou. Arrascaeta teve o lampejo decisivo de sempre e Jorginho não conseguiu dar o ritmo habitual, mas errou apenas um dos 24 passes que tentou.
Não se pode colocar asterisco na quase façanha rubro-negra. Nada de “eles não ligam para o Mundial” ou “o PSG jogou desmotivado”. Filipe Luís disse o óbvio na semana passada, que o europeu se importa mais com a Champions League do que com o Mundial. Mas Luís Enrique tem um espírito competitivo insaciável. Seu time jogou o que vem jogando. Não está no mesmo nível que demonstrou até maio —mas o Flamengo também não está no nível que já mostrou meses atrás. Dois times grandes jogaram de igual para igual.
O Flamengo fez um muito bom jogo tecnicamente. Fisicamente, depois de 76 jogos na temporada, conseguiu igualar forças contra uma equipe superintensa. Tecnicamente, especialmente na defesa, esteve sempre acertado. Os pênaltis são um castigo e sempre é assim para o perdedor. Safanov esperou Pedro e depois desafiou a lógica ficando pela segunda vez seguida no centro do gol. O normal é esperar uma vez. Duas não.
A dúvida sobre se é possível enfrentar os europeus precisa ser levada a sério. Nem sempre é, mas, caso a caso, sim. O Flamengo tinha mais condições de enfrentar o PSG do que o Fluminense bater de frente com o Manchester City. O Botafogo nem entra na conta, porque chegou para seu confronto no ano passado destroçado após a última rodada do Brasileiro. Em 2022, o próprio Flamengo decepcionou e o Real Madrid não precisou esperar. Mas, em 2021 o Palmeiras fez o Chelsea correr até o minuto 120 para ser campeão.
Escrevi aqui na Folha, há 15 dias. sobre o poderio de Flamengo e Palmeiras. Clubes que ganham mais de R$ 1 bilhão por ano, que sabem gastar e que, não à toa, estão dominando o futebol no Brasil e na América do Sul.
Precisamos deixar o vira-latismo de lado. Existe uma super elite europeia formada por Bayern, PSG, Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Arsenal, Liverpool (não o das últimas semanas) e, eventualmente, o Chelsea. Contra o restante, acredito que seja normal um bom time brasileiro jogar bem e vencer. Contra essa elite, o normal é perder, mas o Flamengo teve a coragem de olhar na cara e enfrentar.
Perdeu, como seria normal perder, mas sem ser derrotado.
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