Ferrovia apelidou time que revelou três jogadores de Copas – 20/06/2026 – Sobre Trilhos


Importante principalmente para o escoamento do café a partir da segunda metade do século 19, a ferrovia também contribuiu para batizar um time que assustava seus adversários e cuja cidade foi palco do início das atividades de três ex-jogadores que defenderam o Brasil em Copas do Mundo.

Quando a estação de Batatais, na região metropolitana de Ribeirão Preto, foi inaugurada em outubro de 1886, o município viu sua economia se desenvolver, graças à facilidade que os cafeicultores passaram a ter para escoar sua produção até o porto de Santos —atividade até então feita no lombo de mulas—, mas a população não imaginava que os trilhos dariam também um apelido que persiste até hoje no clube de futebol da cidade.

Fundado somente 33 anos depois, em 1919,o Batatais FC ganhou o apelido de Fantasma da Mogiana devido à força que o time tinha em em suas primeiras décadas em toda a região, que era atendida pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.

Foi nesse cenário que iniciaram suas atividades no futebol o goleiro Batatais (1910-1960) e o atacante Lopes (1910-1996), que foram semifinalistas no mundial de 1938, jogado na França, e, décadas depois, o zagueiro Baldocchi, tricampeão do mundo em 1970, na primeira Copa disputada no México.

Dados da FPF (Federação Paulista de Futebol) mostram que o clube disputou mais de cem partidas entre 1934 e 1937, tendo sofrido somente três derrotas, período em que a agremiação ganhou o apelido histórico.

No ano seguinte a essa série, o atual prédio da estação ferroviária de Batatais foi inaugurado, atendendo pedidos da população, considerada grande para a época e que reclamava uma estação à altura, em substituição à criada no século anterior.

Compreensível o pleito, já que, de um pequeno povoado na década de 1880, o município tinha saltado para 25.168 habitantes em 1909, e continuava crescendo.

Como comparação, a vizinha Franca (a 400 km de São Paulo), tinha à época 10.406 moradores, ante os 365.494 habitantes de hoje, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Batatais, porém, localizada entre duas das principais cidades do interior —Ribeirão Preto e a própria Franca— tem atualmente 59.939 moradores.

A estação de 1938 recebeu passageiros por mais quatro décadas, até que passou a servir apenas ao transporte de cargas, mas somente até os anos 1980.

Os trilhos foram retirados em 1988, como aconteceu em boa parte do interior de São Paulo, e a estação teve múltiplos usos desde então: foi sede da GCM (Guarda Civil Municipal) e depósito, antes de ser atingida por um incêndio no fim da década de 1990. Após ser recuperada, foi transformada em espaço cultural, destinação que permanece atualmente.

E o que ocorreu com os jogadores que defenderam o clube e jogaram Copas? Baldocchi iniciou a carreira no Batatais em 1964 e, depois de ter jogado uma temporada, foi vendido ao Botafogo de Ribeirão Preto. Defendeu ainda Palmeiras, Corinthians e Fortaleza, além, claro, da seleção tricampeã mundial.

Já Algisto Lorenzato, o ex-goleiro Batatais, fez carreira no Fluminense, onde chegou em 1935, segundo o Flu-Memória, e viveu no Rio o início da era do profissionalismo no futebol.

Foi defendendo o clube que foi convocado para jogar a Copa da França, em 1938, primeiro grande resultado do Brasil em mundiais.

Depois de não avançar da primeira fase nos mundiais de 1930 (Uruguai) e 1934 (Itália), em solo francês o Brasil terminou a disputa na terceira colocação, num time que era comandado pelo zagueiro Domingos da Guia e o atacante Leônidas da Silva.

Esteve em campo na vitória sobre a Polônia, por 6 a 5, e também jogou o icônico Fla-Flu da Lagoa, na decisão do Campeonato Carioca de 1941, em que permaneceu em campo mesmo com lesão na clavícula.

Na mesma Copa de 38, José dos Santos Lopes, o Zeca Lopes, como ficou conhecido em Batatais, ou Lopes, como era chamado no mundo do futebol, defendeu a seleção brasileira.

Atacante, depois de surgir no clube local foi o primeiro jogador do Corinthians a ser convocado para defender o Brasil numa Copa.

CONQUISTAS EM CAMPO

O apelido Fantasma da Mogiana é usado até hoje por sua torcida, mas o clube não está disputando na atual temporada nenhuma divisão estadual profissional.

Após ser semifinalista da Série A-2 do Campeonato Paulista em 2016 –a um passo do inédito acesso à elite–, o clube entrou numa espiral descendente que culminou em sucessivos rebaixamentos, até deixar de disputar competições estaduais.

Atualmente, participa de campeonatos de categorias de base e a atual diretoria busca remontar o endividado clube.

Em sua trajetória, porém, conquistou campeonatos como o paulista do interior, em 1945, título que foi homologado pela FPF em 2021, junto com outros 25 títulos da segunda divisão obtidos por 15 clubes entre 1918 e 1945. Era, à época, o título máximo que uma equipe do interior poderia obter.

Foi, também, um dos clubes, ao lado de Ponte Preta e XV de Piracicaba, que pressionaram pela criação da lei do acesso, em 1947, formando a segunda divisão estadual. Ficou perto do acesso dois anos depois, quando foi derrotado pelo Guarani (2 a 1) na final.

Em 2004, ganhou a segunda divisão sub-20 estadual, ao vencer o São Vicente, e, em 2017, foi vice-campeão da Copa São Paulo de juniores, ao perder a final para o Corinthians no Pacaembu, por 2 a 1.



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