Ex-árbitros defendem novo modelo da CBF com ressalvas – 29/01/2026 – Esporte


Como primeiro passo, o modelo de profissionalização da arbitragem do futebol brasileiro apresentado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) foi bem recebido por profissionais e especialistas do apito. Com a previsão de remuneração fixa, além de sistemas de avaliação e bonificação, há a percepção de que os árbitros passarão a ter mais segurança jurídica e financeira.

Ex-auxiliar e ex-presidente da comissão de arbitragem da FPF (Federação Paulista de Futebol), Ana Paula Oliveira parabenizou a CBF pela iniciativa, mas levantou questionamentos sobre o modelo adotado e a falta de diretrizes claras para a implantação do projeto.

“Quais foram os critérios adotados para definir os árbitros do primeiro projeto? São só os Fifas? Não, porque nem todas as mulheres Fifas foram selecionadas. Usaram a temporada de 2024 e 2025, mas vi nomes da temporada de 2025 que foram muito abaixo do esperado”, afirmou.

Para Ana Paula, as dúvidas se estendem aos critérios de avaliação e promoção dos profissionais. “Quais valências que [a CBF] vai avaliar? Física? Performance em campo? O árbitro que usa muito o VAR tem condições? Decisões de controle de jogo ou só técnicas? Qual o nível de inteligência emocional?”, questionou.

De acordo com a CBF, a filiação ao quadro da Fifa (Federação Internacional de Futebol) foi um critério relevante, mas não exclusivo. Dos 72 profissionais selecionados inicialmente, 11 árbitros centrais, 20 assistentes e os 12 árbitros de vídeo são vinculados à entidade máxima do futebol. Os demais têm vínculo apenas com a confederação brasileira.

Apesar das ressalvas de Ana Paula sobre a execução do projeto, o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon avaliou de forma positiva a iniciativa da entidade. Para ele, o passo dado era uma demanda antiga da categoria e representa um avanço histórico.

“Em primeiro lugar, quero dizer que foi um golaço, um gol de placa da CBF. É uma luta antiga, sempre defendi muito a profissionalização. O futebol é um negócio de milhões, e o árbitro sempre foi a única figura amadora”, disse Simon.

Aposentado desde 2010 e atualmente comentarista dos canais ESPN, Simon afirmou que foi consultado pela entidade durante a elaboração do projeto e destacou a importância da segurança financeira. “O estresse no futebol é muito alto, e os árbitros precisam de uma segurança para se dedicar exclusivamente a isso”, afirmou.

“Militei por 27 anos no futebol, cheguei ao top, sendo o único brasileiro a participar de três Copas, e mesmo assim sei o que é treinar sozinho, buscar médicos por conta, fisioterapeutas… Hoje haverá outra situação para os que chegam”, acrescentou.

Os árbitros selecionados para o grupo de elite formado pela CBF serão vinculados à entidade como prestadores de serviço. Os contratos serão assinados ao longo do mês de fevereiro, com duração até o fim do ano. Todos terão salários mensais, taxas variáveis e bônus por desempenho e deverão se dedicar prioritariamente à atividade, mas sem obrigação de exclusividade.

Juridicamente, a CBF não pode exigir dedicação exclusiva de prestadores de serviço. Apesar disso, a ideia da entidade é oferecer um pacote de remuneração e formação que leve os profissionais a ter a arbitragem como principal fonte de renda.

Segundo a confederação, os primeiros beneficiários da iniciativa terão planos individualizados, com rotina semanal de treinos, e estarão sob monitoramento tecnológico. Eles contarão com suporte na área de saúde e passarão por quatro avaliações anuais, com testes físicos e simulações de jogo.

Haverá também uma rotina de capacitação, com imersões mensais que incluem aulas teóricas, testes e sessões práticas em campo.

Para o ex-árbitro Renato Marsiglia, além da remuneração fixa, o contrato anual e o suporte físico e psicológico aos árbitros são fundamentais para o desempenho da profissão.

“O árbitro tem que ter uma segurança. Não pode ficar à mercê de uma lesão. Se ele não trabalha, ele não recebe. Ele não pode ficar à mercê do humor da comissão de arbitragem que resolve não escalá-lo por algum motivo, e aí ele fica três, quatro rodadas, sem receber. Por isso eu entrei na Fifa, não podia deixar minha mulher e meus filhos à deriva dependendo de escala de arbitragem”, disse.

Segundo a CBF, o que ela chama de “profissionalização da arbitragem” faz parte de um pacote de R$ 195 milhões que serão investidos na categoria até o fim de 2027.

A entidade não vai divulgar os valores específicos de cada categoria, mas, em média, cada um dos 72 contratadores terá vencimentos de R$ 13 mil por mês —esse valor poderá chegar a R$ 30 mil fixos para o grupo de árbitros centrais.



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