Documentário explora bem faceta nipônica do ídolo Zico – 09/05/2026 – Ilustríssima


[RESUMO] Entre acertos e opções discutíveis, documentário “Zico, o Samurai de Quintino” tenta ir além de ser um filme para torcedor ou apenas registro de grandes lances nas partidas, investigando aspectos pouco conhecidos da vida do grande jogador e sua decisão enigmática de jogar em um obscuro time japonês no fim da carreira.

A passagem mais doída do filme “Zico, o Samurai de Quintino”, de João Wainer, é aquela em que Zico reafirma seu arrependimento por ter aceitado a convocação para a Copa do Mundo de 1986, no México. “Meu coração dizia que não deveria ir”, declara, reconhecendo sua falta de condições físicas.

O maior ídolo da história do Flamengo e um dos grandes do futebol brasileiro e internacional havia sido vítima de uma entrada criminosa do zagueiro Márcio Nunes, do Bangu, em 29 de agosto de 1985, no Maracanã, durante um jogo do Campeonato Carioca.

Ele tinha 32 anos e vinha de duas temporadas bem-sucedidas na Udinese, na Itália, depois de ter participado da glória máxima de vencer o Liverpool por 3 x 0, em dezembro de 81, em Tóquio, na disputa do que se considerava e considera o mundial de clubes.

Naquela Copa de 1986, a dimensão trágica da carreira do craque se apresentou por inteira. Ele perdeu um pênalti na partida em que o Brasil foi eliminado pela França, o que lhe valeu um injusto estigma. Paralelamente, Diego Maradona, o maior rival na América do Sul, saía endeusado do torneio, vencido pela Argentina.

A gravíssima lesão no joelho esquerdo levou Zico a um penoso e atribulado final de carreira, numa trajetória marcada por grandes vitórias, mas não a que poderia ter sido a maior. Esse signo trágico, a ecoar um pouco da vida que poderia ter sido mas não foi, do poeta Bandeira, talvez tenha levado o famoso Galinho de Quintino a buscar uma segunda grande rodada em sua vida.

Sugestivamente ele iria buscá-la no Japão, o país onde levantou o inesquecível título de 81. Dez anos depois, em 1991, com 38 anos, desembarcava em Kashima contratado pelo obscuro Sumitomo Metals, um time de fábrica que disputava a segunda divisão da liga amadora. A cidade era pequena, isolada e poluída pela fábrica, que tentava mudar sua imagem.

A principal questão do documentário é justamente essa decisão enigmática que a todos surpreendeu, a começar por Sandra, sua mulher. O filme relata a saga que levou o time, posteriormente chamado de Kashima Antlers, a tornar-se, sob a liderança de Zico, uma potência do futebol profissional japonês, alçado a um status impensável décadas atrás.

Não se trata, portanto, de uma produção voltada para os grandes lances do craque, uma espécie de colagem de dribles e gols incríveis, que certamente muitos fãs, especialmente os flamenguistas, talvez esperem. Não ser um filme de torcedor, no sentido mais estrito, foi uma das premissas de Wainer —que é santista e em matéria de ídolo também não tem do que se queixar.

Sim, uma coleção de grandes lances está lá, como o lendário gol de Rondinelli contra o Vasco, na final carioca de 1978, em escanteio cobrado por Zico, os lances em Tóquio, na Udinese e na seleção, para não mencionar uma esplêndida sequência de obras-primas em gols de falta. Há cenas ainda emocionantes da torcida do Flamengo, essa religião popular brasileira que começou a ser mais internacional justamente por obra de Zico.

O propósito, no entanto, é colocar em cena a vida do menino de Quintino, sua formação, suas relações familiares e amizades. Há uma tentativa de vê-lo por dentro por meio de filmetes desconhecidos de Super 8, fotografias e vídeos domésticos. Reconstitui-se a aventura em Kashima com depoimentos de personagens da época e jovens torcedores do time.

Há também um núcleo de conversas sobre a carreira do 10 da Gávea que reúne nomes como Júnior, Paulo Cesar Carpegiani, Ronaldo Fenômeno (que diz que Zico sempre foi seu ídolo), além de Carlos Alberto Parreira, em cenas gravadas entre os troféus e lembranças guardadas pelo jogador.

O flamenguista raiz talvez não preferisse o paulista Mauro Beting como um dos destaques da mídia no filme, mesmo ao lado do narrador carioca José Carlos Araujo —esquecendo-se talvez de que Mauro é autor da biografia “Zico 70” e profundo conhecedor do personagem. É um preço a ser pago pela ideia de fazer um documentário que não quer se reivindicar como carioca e flamenguista, com a ambição de desvendar, o que faz bem, a faceta nipônica do Galinho de Quintino.

Entre acertos e opções discutíveis, o filme amplia o interesse pela vida de Zico e deixa sua marca no espectador —pelo menos deixou no autor deste comentário, que é Flamengo até morrer.



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