Dez rodadas, dez técnicos – 08/04/2026 – Marcelo Bechler
Tenho uma teoria, e admito que é um tanto quanto perversa: a de que os técnicos brasileiros não são bons. São incompletos.
Acredito que haja culpa dos treinadores, mas o sistema é f., como diria Capitão Nascimento. O sistema brasileiro é bem simples: não há paciência para plantar bom futebol e colher bons resultados. É preciso trazer o pão de cada dia para casa e, sem tempo para trabalhar e implantar algo parecido a uma ideia de jogo, o importante é ganhar de qualquer maneira.
Os treinadores entenderam isso e… passaram a jogar de qualquer maneira. Por isso deparamos com algo que já mencionei aqui em colunas anteriores: baixa média de gols, pouco tempo de bola rolando, muitas faltas. O Brasil lidera todas essas estatísticas negativas quando comparado com as principais ligas. O futebol brasileiro se importa muito mais com o resultadismo e não se pergunta “como ganhar”.
Em dez rodadas de Brasileirão, dez técnicos já foram trocados. Depois de mais de 30 rodadas, Espanha e Itália tiveram 11 trocas cada liga e na Premier League inglesa foram 12. A rotatividade brasileira não convida os técnicos a saberem como desenvolver bom futebol ou mesmo superar crises. Porque na primeira crise, ou até antes dela, a fila já andou.
Essa cultura “demissionista” gerou técnicos ansiosos e jogo ruim. Alguns ainda tentam fazer algo diferente e propor ideias autorais. Entre eles, Fernando Diniz, campeão da Libertadores com o Fluminense e no ano seguinte entregando o time afundado na zona de rebaixamento.
Diniz é um desses técnicos incompletos. Não se dá por satisfeito por ter apenas o pão de cada dia, tenta algo distinto, mas também encontra dificuldades para superar crises e fazer ajustes de rota.
Nos últimos dez anos, teve 12 trabalhos em 9 clubes diferentes e ainda a seleção brasileira. Apenas três vezes ganhou mais da metade dos pontos que disputou: no Fluminense, em 2019 (1,52 ponto por jogo) e em 2022/24 (1,76 ponto por jogo), e no São Paulo, em 2020 (1,66).
Um dos técnicos mais promissores do nosso futebol, o que tem as ideias consideradas até revolucionárias para nossos padrões —muitas vezes por simplesmente fazer algo básico no futebol moderno, que é sair jogando com o goleiro—, nunca conseguiu concluir um trabalho com 60% de aproveitamento.
O Corinthians escolhe Fernando Diniz para o lugar de Dorival Jr. tentando reencontrar bons resultados e também alguma coisa de bom futebol. Os problemas serão os mesmos de sempre: de um lado, a urgência pelos pontos e a pressão de torcida e da imprensa para que entregue imediatamente uma identidade de jogo e as vitórias; de outro lado, um treinador que não conseguiu ainda o equilíbrio de jogo necessário para se firmar como uma aposta mais ou menos segura.
O exemplo de Fernando Diniz e as tantas demissões de técnicos no Brasil me fazem pensar que, sem nos fazermos as perguntas corretas, nunca chegaremos às respostas que buscamos: por que ganhamos? Por que perdemos? Como queremos jogar?
Os dirigentes que escolhem os treinadores não se perguntam isso; a imprensa parece mais preocupada em cobrar demissões como solução para todos os problemas; o torcedor perde o senso crítico e embarca na onda imediatista.
Só veremos melhorar o nível do nosso futebol quando nos propusermos a pensá-lo. E demitindo treinadores a cada semana, sem saber o porquê, estamos fazendo tudo, menos pensar.
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