Copa gera estranheza com ‘fase de 32′ e ’16 avos de final’ – 26/06/2026 – Esporte
Quando a Fifa anunciou o aumento das seleções participantes na Copa de 2026 para 48, um acréscimo considerável em relação às 32 que disputaram o Mundial no Qatar há quatro anos, a mudança causou um efeito colateral que, num primeiro momento, trouxe às conversas a expressão “16 avos de final”.
Em busca da “maior Copa de todos os tempos”, surgiu a necessidade de mais uma rodada eliminatória depois de concluída a fase de grupos.
Além dos dois primeiros colocados de cada um desses 12 grupos, entraram na fase eliminatória os oito melhores terceiros colocados.
Como formato, muita gente considera que isso já traz alguma bizarrice, mas o nome desse novo pedaço da tabela provocou também um incômodo imediato.
A expressão 16 avos de final só não causa estranheza a quem acompanha esportes na França e na Espanha e àqueles que trabalham com matemática ou pelo menos gostam do mundo dos números. “Avos” é uma palavra da matemática que indica as partes iguais em que uma unidade foi dividida.
Quando essa divisão não ultrapassa dez partes, existe um nome específico para cada uma dessas frações. Um meio, um terço, um quarto, seguindo até um décimo.
Dali para a frente, a nomenclatura assumida é 11 avos, 12 avos… Vem do latim “avus”, e em português seu uso era restrito a um termo matemático fracionário.
A Fifa não inovou ao adotar essa expressão no esporte. Na França, a rodada eliminatória que antecede as oitavas de final é chamada “seizièmes de finale”. Na Espanha, “dieciseisavos de final”.
A França é a maior usuária da expressão, porque vários esportes nacionais além do futebol têm essa tradição de competições com fases eliminatórias, como judô, esgrima e ciclismo.
Mas a Fifa tratou de agradar aos países de língua inglesa ao divulgar pela primeira vez o regulamento desta Copa. Foi adotada a nomenclatura “round of 32” (rodada de 32). Ela é habitual nas chaves dos torneios esportivos.
Existem alternativas pontuais. Nas maiores competições do tênis, o chamado Grand Slam, que reúne Wimbledon, Roland Garros e os Abertos da Austrália e dos EUA, a disputa é iniciada com 128 jogadores, na chamada “first round” (primeira rodada).
A equivalência às expressões matemáticas é mantida, mas sem adesão no jargão do esporte. O uso consagrado é outro.
Um jornalista esportivo dificilmente escreveria que um jogador na segunda rodada chegou aos “64 avos de final” de Wimbledon. Essa frase soaria muito estranha até para quem acompanha tênis regularmente.
A Fifa não oficializou o nome em português. Nas divulgações da Copa no idioma, apareceram “16 avos de final”, “rodada de 32” e ainda “segunda fase”.
Em Portugal, foi usada a nomenclatura “fase pré-eliminatória”, estranha demais porque já se refere a jogos nos quais os perdedores saem do Mundial.
A entidade que dirige o futebol mundial tem experiência em pequenas confusões desse tipo. A Copa de 1982, na Espanha, foi a primeira com 24 seleções e criou uma estrutura muito diferente da existente até então.
O torneio passou a ter seis grupos de quatro times numa primeira fase, com as duas primeiras seleções de cada um passando a uma etapa seguinte, que foi chamada então de “fase final de grupos”, “fase especial de grupos” ou, simplesmente, “segunda fase”.
Assim, as equipes foram divididas em quatro grupos de três seleções cada um, com os vencedores classificados para as semifinais.
Nessa estrutura, o Brasil de Zico, Falcão e Sócrates, classificado em primeiro no seu grupo na primeira fase, avançou à “segunda fase” em grupo com Argentina e Itália —terminou eliminado nessa etapa após derrota para os italianos.
O Mundial de 1986 manteve as 24 seleções, mas estabeleceu o sistema que ficou em vigor até a Copa de 1998, na França: os dois primeiros de cada grupo avançavam para as oitavas de final, além dos quatro melhores terceiros colocados.
Na França, o número de participantes aumentou para 32 seleções, marcando o início do mata-mata composto apenas pelos dois primeiros colocados de cada um dos oito grupos de quatro equipes.
Com a ampliação para 2026, a Fifa voltou com a classificação de melhores terceiros colocados.
Na divulgação da tabela da Copa de 2026, indagado a respeito de uma nomenclatura “oficial”, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, minimizou a necessidade de consolidar um padrão e utilizou a expressão “round of 32”.
“Cada país pode adotar a melhor maneira para essa designação. É uma rodada eliminatória com 32 times. O importante é que o regulamento da Copa é muito fácil de ser compreendido.”