Copa expõe tensão entre ambição e desigualdade em Marrocos – 07/05/2026 – Esporte


A Copa do Mundo de 2030 simboliza o ápice da ambição que transformou o futebol em projeto nacional no Marrocos. Coanfitrião do torneio, ao lado de Portugal e Espanha, o país africano conduz um amplo plano de infraestrutura para o megaevento, estimado em cerca de 14 bilhões de euros (R$ 92 bilhões), segundo documentos da candidatura apresentados à Fifa (Federação Internacional de Futebol).

Antes disso, porém, a seleção do país se concentra no Mundial de 2022. A equipe será a primeira adversária do Brasil na fase de grupos, levando ao torneio da América do Norte o modelo que combina investimento estatal, ambição internacional e resultados esportivos recentes.

Parte da população marroquina, porém, não está empolgada com a chance de encontrar a seleção brasileira no Mundial ou mesmo sediar o torneio daqui a quatro anos. Para essa parcela, o gastos são uma inversão de prioridades. Desde setembro do ano passado, protestos liderados por jovens em diferentes cidades, como Rabat, Casablanca e Fez, criticam o investimento bilionário no torneio, com slogans como “queremos hospitais, não estádios“, e cobram mais recursos para saúde e emprego.

Em 2023, de acordo com reportagem da BBC, estimava-se que havia 7,8 médicos para cada 10 mil marroquinos, número muito inferior à recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que é de 23 médicos para cada 10 mil habitantes.

A reação interna —que guarda alguma semelhança com o que ocorreu no Brasil em 2014— contrasta com a estratégia do governo marroquino de transformar o Mundial em instrumento de projeção internacional, usando o futebol para reposicionar a imagem do país no exterior.

“O acesso ao futebol de elite está fortemente concentrado nos grandes centros urbanos, onde estão a infraestrutura, os treinadores e as redes de observação”, afirmou à Folha Dirk Witteveen, sociólogo e pesquisador de políticas sociais da Universidade de Oxford. “Isso cria uma desigualdade geográfica clara: jogadores e cidadãos de regiões periféricas ou rurais enfrentam muito mais barreiras para entrar no sistema econômico.”

O diagnóstico ajuda a explicar por que o crescimento do futebol não se espalha pelo país. De acordo com dados do Banco Mundial, os 20% mais ricos concentram mais de metade da renda em Marrocos, enquanto o desemprego entre jovens supera 20%, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Embora o país tenha investido na modernização de centros de treinamento e na profissionalização de sua estrutura esportiva, o acesso às principais oportunidades permanece concentrado.

O país incluiu seis estádios em seu plano para receber a Copa, e todos ficam nas regiões urbanas das principais cidades do país. Cinco deles já existem: Estádio Príncipe Moulay Abdellah (Rabat), Grand Stade de Tanger (Tânger), Estádio de Fez (Fez), Estádio de Agadir (Agadir) e Estádio de Marrakech (Marrakech).

O sexto palco, o Estádio Hassan 2º, está em construção, projetado para ser o “maior estádio do mundo”, com capacidade para 115 mil espectadores.

A arena ficará localizada na cidade de Benslimane, a cerca de 38 quilômetros de Casablanca. E é o trunfo de Marrocos para tentar tirar a final da Copa do Mundo de 2030 do Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, na Espanha.

Pesquisadores apontam, porém, que a ampliação da infraestrutura ocorre em um contexto de pressão sobre recursos básicos. O país enfrenta estresse hídrico severo, segundo o Banco Mundial, em um cenário em que cerca de 80% da água disponível é destinada à agricultura, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Ao mesmo tempo, o investimento no futebol responde a objetivos que vão além do campo. “O uso do futebol como ferramenta de projeção internacional e construção de imagem é central para países como Marrocos”, afirmou o britânico Simon Chadwick, especialista em economia do esporte. “O país utiliza o esporte como base para se afirmar como uma liderança geopolítica no continente africano.”

Esse tipo de estratégia não é novidade. “Há mais de um século, países utilizam grandes eventos esportivos para elevar seu status internacional, projetar uma imagem ao mundo e reforçar a construção nacional”, disse Kristina Spohr, professora de história internacional da London School of Economics.

Mas o alcance dessa projeção tem limites. “Eventos esportivos produzem janelas de atenção, mas seus efeitos sobre a imagem internacional tendem a ser efêmeros e seletivos”, afrimou Vitória Baldin, pesquisadora em comunicação pela Universidade de São Paulo.

Na prática, isso significa que o sucesso esportivo pode conviver com tensões internas sem necessariamente resolvê-las, como afirma o sociólogo David Giulianotti: “O sucesso internacional pode coexistir com profundas desigualdades estruturais dentro dos países”.

Embora Marrocos tenha registrado crescimento econômico nos últimos anos, os ganhos permanecem concentrados, enquanto parte da população enfrenta dificuldades de acesso a emprego, saúde e educação. Essa distribuição desigual está no centro das críticas recentes.

A Copa de 2030 tende a expor esse contraste do caso marroquino, entre o país que se apresenta ao mundo e aquele que ainda enfrenta desafios internos para distribuir de forma mais equilibrada os benefícios do próprio desenvolvimento.



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