Copa do Mundo tem mais jogadores religiosos do que nunca – 23/06/2026 – Esporte


Jogadores muçulmanos se prostrando diante de Alá; jogadores da Alemanha e de Curaçao rezando juntos no campo após os primeiros vencerem os segundos por 7 a 1; um círculo de oração dentro da seleção holandesa —esta é a Copa do Mundo mais abertamente religiosa de que se tem memória. A religião pode ter um apelo particular para os jogadores de futebol, mas essas cenas também revelam mudanças sociais mais amplas.

“Isso diz algo sobre o retorno da religião à esfera pública”, afirma Mariecke van den Berg, professora de teologia na Vrije Universiteit de Amsterdã. “Mas essa nova paisagem religiosa terá uma aparência diferente.”

Historicamente, o catolicismo dominou a Copa do Mundo, com países de maioria católica vencendo 18 dos 22 torneios. A antiga Alemanha Ocidental, dividida aproximadamente meio a meio entre protestantes e católicos, venceu mais três. Os único campeão não católico foi a Inglaterra em 1966. Isso significa que o gesto religioso mais comum ao longo das décadas foi o de jogadores fazendo o sinal da cruz.

Alguns ainda fazem, como o croata Petar Musa após marcar contra a Inglaterra, ou o técnico argentino dos Estados Unidos, Mauricio Pochettino, em um momento tenso durante a vitória sobre a Austrália.

Mas o cristianismo evangélico ganhou destaque após a final da Copa do Mundo de 2002, quando alguns jogadores brasileiros celebraram a vitória vestindo camisetas que diziam “Jesus ♥ You” (Jesus te ama). Em 2022, o Islã seguiu o mesmo caminho quando Marrocos chegou às semifinais. Jogadores e comissão técnica recitaram juntos o primeiro capítulo do Alcorão antes de vencer a Espanha nos pênaltis, depois se ajoelharam para realizar o Sujood al-Shukr, uma prostração de agradecimento a Alá. Muitos jogadores muçulmanos, como o egípcio Mo Salah, marcam seus gols com o Sujood.

A expressão islâmica pode irritar a extrema direita europeia. Quando o zagueiro alemão Antonio Rüdiger postou uma selfie em um tapete de oração apontando para o céu, foi acusado erroneamente de endossar o terrorismo. Na semana passada, o político holandês de extrema direita Geert Wilders escreveu um palavrão acima de uma foto de jogadores marroquinos rezando após o treino. A reprovação encorajou alguns jogadores holandeses de origem marroquina, como o devoto lateral barbudo Noussair Mazraoui, a escolher a terra natal de seus pais em vez da Holanda.

A maioria dos europeus é mais receptiva aos jogadores cristãos evangélicos, que tendem a ser descendentes de imigrantes. Questionado sobre a oração entre Alemanha e Curaçao, o alemão Felix Nmecha disse: “Depois da partida, somos todos cristãos… Todos acreditamos que Jesus é glorificado através do jogo”.

Esses gestos não são totalmente espontâneos. Nmecha e Kenji Gorré, de Curaçao, pertencem à rede cristã Ballers in God, em cujo site Nmecha anuncia caneleiras “Jesus Loves You”: “Não só são leves e têm o encaixe perfeito para mim, como são todas sobre Jesus”.

O proselitismo é comum entre jogadores evangélicos. O goleiro brasileiro Alisson Becker ajudou a batizar seu ex-companheiro brasileiro de Liverpool, Roberto Firmino.

Van den Berg afirma: “Acho que a forma mais viável de cristianismo na Europa agora é o cristianismo evangélico, tanto para igrejas de imigrantes quanto para igrejas mais brancas. Eles conseguem se conectar com a cultura jovem, através de sermões curtos, direcionados à emoção. E tem uma história clara.

“Frequentemente é eticamente conservador, o que atrai mais do que a progressividade ética porque oferece um enquadramento muito claro para sua vida —o que é permitido e o que não é.”

Ela acredita que a religião “pode ter um efeito positivo nos jogadores”. Muitos jogadores migram jovens. A fé religiosa os ajuda a lidar com a solidão, a pressão e os reveses como ficar no banco, e pode aliviar sua culpa por ficarem ricos enquanto pessoas com quem cresceram permanecem pobres. “O cristianismo pentecostal nos países latino-americanos é frequentemente baseado na teologia da prosperidade, que vê a riqueza como um sinal de que Deus te abençoa”, ela diz.

A oração também pode ajudar os jogadores a se prepararem para os jogos. O ponta holandês Crysencio Summerville diz que antes de uma partida liga para sua família, “e rezamos juntos, e entro em foco”. Depois ele reza para sua falecida avó, pedindo a ela “que me dê força”.

A religião no futebol pode gerar conflitos políticos. Muitos cristãos evangélicos têm visões de direita sobre questões como os direitos de pessoas LGBT+ ou mulheres, diz van den Berg. As opiniões políticas de Nmecha causaram controvérsia na Alemanha. Quando ele assinou com o Borussia Dortmund, alguns torcedores se opuseram, acusando-o de transfobia e homofobia —o que ele nega. O Dortmund implementou uma política de redes sociais mais rígida cobrindo Nmecha depois que ele postou uma homenagem ao comentarista americano de extrema direita assassinado Charlie Kirk.

A religiosidade se tornou tão prevalente que em algumas equipes uma maioria religiosa pode exercer pressão sobre companheiros não crentes. Todo o elenco do Brasil —incluindo católicos e evangélicos— rezou junto na Copa do Mundo de 2014. Agora até o técnico holandês de Curaçao, Dick Advocaat, nunca antes conhecido por sua religiosidade, participa da oração coletiva de sua equipe. Em contraste, na seleção holandesa, Summerville aceita que alguns jogadores não rezam: “Cada um tem o seu jeito”.

A abundância de jogadores cristãos nascidos na Holanda nesta Copa do Mundo surpreendeu uma Holanda majoritariamente secular. Van den Berg diz que isso se deve em parte ao fato de o debate político europeu geralmente focar imigrantes muçulmanos, não em imigrantes cristãos. A religiosidade do torneio, ela diz, sinaliza “que a Europa não é tão secular quanto pensava”.



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