Copa do Mundo: O que é preciso para derrotar a França? – 13/07/2026 – Esporte
Após a disputa de cem jogos, a Copa do Mundo de 2026 está chegando ao fim com uma certeza indiscutível: a seleção da França é a equipe mais temida desta edição, chegando à semifinal com status de maior favorita ao título.
Com um ataque poderoso, um meio de campo equilibrado e uma defesa segura, a equipe do técnico Didier Deschamps tem todas as ferramentas necessárias para superar qualquer adversário.
Mas o que os rivais precisam fazer para superá-la? Técnicos ouvidos pela Folha deixam claro que não há uma resposta única e, muito menos, certeza de que isso acontecerá nesta competição.
“A França é uma seleção que reúne três características difíceis de enfrentar ao mesmo tempo: força física, velocidade e talento individual. Por isso, tentar vencê-la apenas igualando essas virtudes normalmente não basta”, afirma Ney Franco, treinador do Al-Hussein, da Jordânia.
“Em partidas equilibradas, normalmente vence quem comete menos erros. Contra a França, isso é ainda mais verdadeiro. Ela tem jogadores capazes de transformar um pequeno desequilíbrio em um gol”, completa.
Após a classificação da França para a semifinal, na vitória por 2 a 0 sobre Marrocos, o francês Arsène Wenger, ex-treinador histórico do Arsenal, da Inglaterra, e atual chefe de Desenvolvimento Global de Futebol da Fifa, analisou a seleção no podcast dos irmãos Felix e Toni Kroos, este último ex-jogador do Real Madrid e da seleção alemã.
Ele foi taxativo ao afirmar que a França será campeã e indicou apenas uma seleção com condições para superá-la: a Espanha, adversária da semifinal, nesta terça-feira (14), às 16h.
“Para mim, a verdadeira interrogação é a Espanha. Se alguma seleção é capaz de vencer a França agora, eu diria que é a Espanha. Porque eles têm um nível técnico melhor que a França. Eles têm uma qualidade de jogo coletivo, e uma cultura de jogo coletivo, que ninguém mais no mundo tem no momento. Não nesse nível, pelo menos. Então, na minha opinião, está entre essas duas. Depois disso, é claro, a França é mais forte fisicamente”, declarou.
Para identificar as possíveis falhas francesas que podem ser aproveitadas, a Folha ouviu, além de Ney Franco, os técnicos Abel Ferreira, do Palmeiras, e Roger Machado, atualmente sem clube.
Compactação na defesa
Roger Machado afirma que, do ponto de vista defensivo, a seleção rival precisa ter uma equipe muito compacta, com as dobras de cobertura sendo sempre bem feitas para evitar as individualidades dos rápidos atacantes franceses.
Além disso, o bloco defensivo não pode ficar muito atrás porque, se isso acontecer, a equipe francesa ficará mais perto do gol e dará a esses jogadores habilidosos a possibilidade do drible e da finalização.
“Buscar controlar as bolas em profundidade com a cobertura dos zagueiros e laterais e com atenção do goleiro. Se necessário, colocar um quinto jogador dentro da linha defensiva para controlar os jogadores em amplitude da França”, diz Roger.
Roubo de bola na pressão francesa
Roger aponta que no momento de pressão é que o rival francês pode se aproveitar, em caso de um roubo de bola, pegando a defesa vulnerável.
“Isso pode expor a linha defensiva e gerar danos à França, se bem utilizados. Se a Espanha retirar a bola da zona da pressão logo que recuperá-la, primeiro com passes laterais ou para trás, antes de atacar as costas da linha defensiva em profundidade, pode ser fatal”, analisa.
Explorar as bolas nas costas de Dembélé
Outro ponto que pode ser aproveitado pelo rival, destaca Roger, é explorar o lado direito francês, onde os atacantes —principalmente Dembélé— têm mais fragilidade defensiva e podem deixar um espaço pelo qual o adversário pode atacar.
“Seja para definir a jogada pelo lado ou gerar desequilíbrio, sobretudo nos volantes franceses, que vão fazer coberturas do lado do campo neste momento defensivo. Isso pode expor a entrada da área para finalizações de média distância ou troca de corredor e entrada pelo lado oposto da defesa francesa.”
Ser eficiente com e sem a bola
Ney Franco, por sua vez, afirma que, para derrotar a França, é preciso antes de tudo controlar o contexto da partida. Reduzir os espaços para as transições ofensivas, impedir que os atacantes recebam em velocidade e obrigá-los a jogar mais tempo em ataque posicional, sem tanta movimentação.
“Com a bola, não basta apenas ter posse. É necessário ter uma posse inteligente, capaz de descansar a equipe, tirar intensidade da França e escolher os momentos certos para acelerar”, diz Ney.
Ele completa: “Também é fundamental ser extremamente eficiente sem a bola. A equipe precisa defender de forma compacta, diminuir o espaço entre linhas e evitar perdas de posse em zonas centrais, porque a França transforma erros do adversário em chances de gol com muita rapidez.”
Aproveitar as raras oportunidades
O português Abel Ferreira afirma que favoritismo nunca ganhou um jogo e o futebol continua sendo um território da incerteza.
Por isso, diz que quem quiser vencer uma equipe como a França tem de cometer menos erros, ser extremamente eficaz nos momentos decisivos e aproveitar as poucas oportunidades que ela vai conceder.
“No mais alto nível, muitas vezes a diferença está nos detalhes e no fator psicológico que muitas vezes decide jogos deste nível. Viram como a França estava tensa contra o Paraguai? Quanto maior é o favorito, maior é a responsabilidade de confirmar esse favoritismo e essa pressão, que, por vezes, também joga.
Mas não existe uma fórmula para vencer a França. Se existisse, todos a utilizariam”, sustenta Abel.
“Contra seleções desse nível, dificilmente surgirão muitas oportunidades. Por isso, a eficiência nas duas áreas costuma decidir o jogo”, afirma Ney Franco.
Furar marcação em bolas paradas
Roger Machado indica outra possibilidade de surpreender a França: jogadas ensaiadas em cobranças de faltas laterais ou escanteios.
Ele diz que, em escanteios, a seleção francesa marca os jogadores rivais de forma individual, o que abre espaço para atacar a bola na primeira trave após um bloqueio dentro da área.
“E, em jogadas de falta lateral, a França marca por zona. Faltas ensaiadas e jogadas em dois ou três tempos podem gerar vantagem para a Espanha.”