Copa do Mundo é um sucesso, com uma deformidade grave – 24/06/2026 – Marcelo Bechler
A Copa do Mundo com 48 seleções está se saindo melhor que o esperado.
Entre novidades, como o aumento do número de times e a guerra contra a perda de tempo, o ponto negativo são as pausas para hidratação. O menos importante neste período é a água que os jogadores bebem. A Fifa decidiu fazer do futebol um jogo de basquete, dividindo as partidas em quatro tempos de 22 minutos. As críticas são gerais, de jogadores e técnicos a torcedores, mas “time is money”, e os três minutos de pausa são uma mina de ouro para as TVs.
Estou acompanhando a primeira fase em Dallas, onde o estádio é coberto e climatizado. Não faz sentido fracionar o jogo, mas, pela isometria da competição, as paralisações são mantidas.
Nos três jogos que acompanhei, os torcedores vaiaram. Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra, disse que é uma vantagem para o time que está pior, pois pode fazer correções. Lionel Scaloni, da Argentina, afirmou que o tempo que um técnico tem no intervalo é parecido aos três minutos da pausa, porque os jogadores demoram para chegar e para sair dos vestiários. Mbappé disse que não seria hipócrita: “Se estivermos perdendo, vou gostar. Se estivermos ganhando não”.
Não há quem aprove. E vou mais longe: é uma clara deformação do jogo. O futebol é um esporte que se diferencia dos outros por não ter essas pausas. O “momentum” é fundamental no jogo e quebrá-lo por interesses comerciais fere o espírito do esporte. No basquete e no vôlei os técnicos podem parar o jogo para quebrar o ritmo do adversário. Aproveitam o tempo para instruir seus comandados e esfriar o jogo rival. É estratégia válida e inteligente.
No futebol isso não deveria existir. Quando um goleiro se joga no gramado simulando uma lesão, o que ele quer é um tempo técnico. E é justamente isso o que a Fifa está tentando coibir com as novas regras de combate ao antijogo. A mesma Fifa que estabelece pausa para os comerciais nas partidas.
Feito a ressalva sobre o grande ponto negativo do Mundial —além das questões diplomáticas que mostram o que é o novo Estados Unidos para o mundo—, a Copa é um sucesso.
Os estádios estão lotados, mesmo com ingressos que ultrapassam US$ 2.000 para ver Lionel Messi em campo, por exemplo. O aumento para 48 seleções não fez o nível técnico despencar e permitiu boas histórias e algumas surpresas. Curaçao sofreu sete da Alemanha, mas foi capaz de segurar o Equador.
Cabo Verde já fez dois pontos e sonha em se classificar. Os jogos estão bem disputados e as seleções demonstram um padrão: dificuldade contra times bem fechados e um festival de coordenação para atacar quando têm espaço para correr.
Até por isso, Argentina e Espanha, que jogam um futebol mais associativo, tendem a fazer um torneio diferente das demais, preferindo um jogo mais pausado e de menos idas e vindas. Coisa que França, Inglaterra, Brasil e Portugal estão dispostos a encarar.
A Copa também é dos protagonistas. Messi, Mbappé, Haaland, Cristiano Ronaldo, Kane, Vini Jr e Salah já marcaram e foram importantes para suas equipes.
Estamos no início da terceira rodada, quando começam a aparecer os confrontos do mata-mata. Com tantos protagonistas, não é ficar em cima do muro dizer que tudo pode acontecer até dia 19 de julho.
Afinal, um jogo de futebol é um mundo de 90 minutos divididos em dois tempos de 45.
Ou pelo menos deveria ser assim.
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