Copa do Mundo: Deus não se preocupa com futebol – 05/07/2026 – PVC
Carlo Ancelotti disse a Mônica Bergamo que não reza porque Deus tem mais com o que se preocupar que com partidas de futebol. Jamais confessei isto, nem à minha mãe, mas em 5 de julho de 1982, com o Brasil perdendo por 2 x 1 para a Itália, fui ao banheiro e rezei sozinho.
Como a seleção de Telê Santana caiu naquele dia por 3 x 2, acho que Ancelotti tem razão. Deus tem mais com o que se preocupar.
Mais de 40 anos depois daquele dia, o Brasil volta a jogar num 5 de julho. Em Copas, aquela segunda-feira no Sarriá, em Barcelona, foi a única partida em que rezei. Fora isso, 1 x 0 na Escócia, na Minicopa de 1972, e 1 x 0 no Peru, Copa América de 2021.
A segunda-feira de Brasil 2 x 3 Itália aconteceu no último dia em que vi minha avó, Maria Emília. Levamos meu avô e ela ao aeroporto, de onde partiram para uma viagem de três meses na terra natal deles, Portugal. Um câncer fulminante levou-a em setembro, dois meses depois da derrota para os italianos.
Duas perdas na mesma segunda-feira, a Copa do Mundo e minha avó.
Dizem que o futebol brasileiro deixou de ser arte naquele dia. Seria a terceira derrota, se fosse verdade, mas não parece. A quem argumenta que a seleção passou a jogar feio e a se encher de volantes porque perdeu para a Itália, o contraponto é a seleção de 1978, que jogou mal e perdeu com Chicão no lugar de Falcão na convocação de Cláudio Coutinho.
Se o Brasil tivesse desistido do futebol-arte naquele 5 de julho de 1982, Telê Santana não seria novamente o técnico da seleção quatro anos depois; teria sido condenado ao ostracismo. A história o consagra, inclusive na queda no Sarriá.
Criou-se o falso dilema de ganhar como em 1994 ou perder como em 1982, como se houvesse apenas estas duas alternativas num país que ganhou todos os jogos e teve o melhor ataque em 2002. Sem falar em 1970, porque aquela equipe de Pelé, treinada por Zagallo, é hors-concours.
Nunca se criou uma disputa dogmática Telê versus Parreira ou versus Zagallo, como se faz na Argentina com Menotti x Bilardo, o primeiro, campeão em 1978 e defensor do jogo ofensivo, o segundo, vencedor em 1986 com Maradona e pragmatismo.
Aqui o debate é mentiroso; ganhar como em 1994 ou perder como em 1982. Ora, existe o ganhar como em 2002, com sete vitórias em sete partidas, o melhor ataque e cinco estrelas, com o brilho de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu.
Contraditório é parte do país chamar Carlo Ancelotti de professor pardal por preferir um atacante, Martinelli, a um volante, Danilo Santos. O técnico italiano, longe de ser um retranqueiro, também está distante de ser um revolucionário como Guardiola, criticado por atacar.
Taticamente, não há perdas neste caso, porque Martinelli fecha o lado esquerdo do campo de maneira até melhor que Danilo o faria. E pode inverter posições com Vinicius Junior, ora com o melhor do time perto do gol, ora próximo à linha lateral para induzir a defesa da Noruega a se abrir.
O objetivo de Ancelotti não é nem atacar demais nem se defender exaustivamente. É vencer e produzir lembranças deste 5 de julho mais felizes do que aquelas de 44 anos atrás.
Como está escrito nas cédulas de um dólar: In God We Trust.
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