Copa 2026: números das camisas têm identidade nacional – 13/06/2026 – Esporte
Os desenhos das letras e números usados nas camisas de Brasil, Noruega, Portugal e Argentina para a Copa do Mundo de 2026 mostram como as marcas recorrem à cultura, à memória e até a estereótipos para transformar uma informação funcional em símbolo de identidade e ajudar a reunir a torcida em torno da seleção.
Na camisa da Noruega do artilheiro Erling Haaland, o número 9 é feito de ângulos que parecem talhados em pedra. No Brasil, o 8 tem o centro estreito como uma ampulheta e uma base mais larga.
Portugal estica os algarismos em linhas sinuosas. A Argentina prefere números altos, arredondados e condensados. As principais fornecedoras de uniformes na Copa são a Nike, a Adidas e a Puma.
“Quando a tipografia tenta expressar uma característica, ela perde legibilidade para ganhar identidade”, diz o tipógrafo Márcio Freitas, sócio do Estúdio Thema e coordenador do desenvolvimento das letras que você está lendo agora —usadas pela Folha desde o projeto gráfico de 2018, no impresso e no digital.
Nas camisas de futebol, essa troca não chega a ser um problema, segundo ele. “Ninguém vai ler um romance com aqueles caracteres”, explica.
A Fifa não define uma fonte única para as camisas, mas regula essa liberdade com uma engenharia de medidas: o número nas costas deve ter de 25 cm a 35 cm de altura e traços de 2 cm a 5 cm. O nome do jogador deve ter letras de 5 cm a 7,5 cm e ficar ao menos 4 cm acima do número.
É nesse espaço que as marcas tentam transformar algarismos funcionais em identidade visual. Em comunicados oficiais sobre cada uniforme, as três explicam com abundância as histórias, paisagens, símbolos e tradições usados nas camisas de 2026.
Não detalham, porém, como foram criadas as letras e os números. As relações entre esses desenhos e as identidades nacionais ficam, assim, a cargo da observação de especialistas.
Entre as tipografias citadas, Freitas considera a da Noruega a mais bem-sucedida em traduzir uma ideia de país. A Nike apresenta a coleção norueguesa a partir da herança viking.
Diz a marca que a camisa titular vermelha traz, nas faixas azuis, um grafismo tonal no estilo Urnes, ornamentação medieval escandinava marcada por animais e fitas entrelaçados. O uniforme reserva preto remete aos berserkers, guerreiros associados à ferocidade em combate.
Os ângulos da tipografia foram associados às runas nórdicas. Para Freitas, a relação é imediata. Os números têm curvas substituídas por retas inclinadas, encontros duros e irregularidades que lembram inscrições abertas em pedra ou metal.
“Parece algo feito com um instrumento não muito apropriado para uma escrita delicada, como rasgar a pedra com metal”, afirma. “Tem algo tribal, antigo. Eu olho e vejo essa relação.”
O Brasil segue outro caminho. O uniforme mantém o amarelo clássico e incorpora à malha formas geométricas associadas à bandeira. Em vídeo no Instagram, a designer brasileira da Nike responsável pelo projeto, Rachel Denti, citou referências à capoeira e a intenção de misturar acabamentos retrô e modernos.
No vídeo, ela não fala da fonte da numeração. Procurada, não respondeu a pedido de entrevista.Freitas, porém, vê na tipografia uma continuidade mais controlada de uma linguagem que já aparecia em 2022, quando muitos associaram os números da seleção ao grafite das grandes cidades.
Ele considera a fonte daquela Copa quase um estereótipo do Brasil urbano e periférico, especialmente de São Paulo. Na de 2026, ainda percebe dureza, irregularidade e aparência manual, mas com mais requinte e domínio do desenho.
“A de 2026 é muito mais bem desenhada do que a de 2022. Para mim, os números remetem ao fazer manual de cartazes, de quem faz uma placa para vender o seu produto na esquina ou numa quermesse do interior.”
Em Portugal, a narrativa oficial é marítima. A Puma diz que a camisa vermelha recebe um padrão ondulado inspirado na tradição de um país de navegadores. A tipografia também segue esse estilo.
Freitas considera a relação visual possível: os números são altos, estreitos e sinuosos. Mas vê aí também uma demonstração de como o marketing constrói significado a partir de formas simples.
“Uma onda pode ser a onda do mar ou uma onda sonora de rádio”, afirma. “Por ser simples, o desenho permite que você o associe ao que deseja e crie a história de que precisa.” A ligação com o oceano, portanto, funciona —mas não é inevitável. A mesma curva poderia sustentar outra narrativa.
Já a Argentina, segundo Freitas, é o caso mais distante de uma identidade nacional entre os quatro analisados. A Adidas diz que as listras azul-celestes e brancas da titular ganham uma transição em três tons, referência às camisas campeãs mundiais de 1978, 1986 e 2022.
Os números são arredondados e estreitos. Freitas morou 18 meses no país vizinho e estudou tipografia na Universidade de Buenos Aires. Ainda assim, não reconhece neles qualquer elemento que o faça pensar na cultura visual argentina.
“Se eu olhasse para essa fonte fora do contexto das cores e da camisa, jamais diria que ela tem relação com o país”, afirma.
Outras seleções ampliam o catálogo cultural da Copa. A Adidas usa no México grecas —faixas ornamentais formadas por desenhos geométricos repetidos, comuns na arquitetura e nas artes mesoamericanas.
A Puma recorre no Marrocos a padrões inspirados na azulejaria tradicional —o zellige, mosaico formado por pequenas peças de cerâmica colorida.
Em Gana, a camisa reserva usa o kente, tecido tradicional feito de faixas tecidas e padrões coloridos, enquanto a estrela preta da bandeira, a Black Star, aparece como símbolo nacional e dá nome à seleção.
No caso do Uruguai, reportagens da imprensa especializada relacionam a coleção da Nike ao art déco de Montevidéu, ao Estádio Centenario e à Torre de los Homenajes.
A fonte personalizada teria partido da sinalização e da linguagem visual da Copa de 1930, disputada no estádio construído para celebrar os cem anos da primeira Constituição uruguaia.
O conjunto da Copa 2026 mostra que um número nunca chega sozinho às costas do jogador. Ele vem cercado de bandeiras, monumentos, tecidos, mitos e paisagens, alguns reconhecíveis de imediato, outros dependentes de longos textos de marketing.
Para Freitas, essa construção também tem uma finalidade comercial. “A marca vai junto no caminhão da emoção da Copa. O torcedor se identifica com a cor, com o jogador, com o número e também com o tipo de letra. Depois vai querer comprar a camisa.”