Continuemos vaiando as pausas comerciais – 30/06/2026 – Idelber Avelar


Chamemos a catástrofe pelo nome correto. Não são “pausas para hidratação”. São pausas comerciais. Os jogos de Dallas, Houston e Atlanta acontecem no ar condicionado. Os estádios de Vancouver e Los Angeles possuem tetos que mitigam o calor. Na primeira pausa de Colômbia e Uzbequistão, a temperatura era 16˚C. Gana e Panamá foi jogado a 18˚C. São dois entre muitos exemplos.

Nenhum boleiro razoável se oporia a pausas em jogos disputados sob calor extremo. Mas estes são uma minoria nesta Copa, e ninguém gasta três minutos para beber um pouco de água.

Com o pretexto da isonomia (como se a única isonomia que importa não fosse entre as duas equipes em campo), a Fifa impôs a pausa de três minutos para ambos os tempos de todos os jogos. De um esporte de dois tempos, o futebol está se transformando em um esporte de quatro quartos.

Sei que pela televisão não se percebe, mas as vaias têm sido estrepitosas. O público percebe que está sendo enganado por uma mudança de regras externa ao jogo.

Pelo menos duas vezes na história do futebol as regras foram alteradas por razões internas ao jogo. Até 1925, a lei do impedimento exigia que houvesse três defensores (em geral o goleiro e mais dois) entre a linha de fundo e o atacante no momento do passe. As defesas podiam manter um zagueiro na sobra atrás da linha do impedimento. Os atacantes tinham que se alinhar com o penúltimo defensor de linha, não com o último, como hoje. Com um zagueiro na sobra atrás da linha do impedimento, fazer gols era dificílimo. A nova regra foi saudada por todos. A temporada de 1925-26 bateu recordes de público na Inglaterra.

A Copa de 1990 e a Euro de 1992 estiveram repletas de tediosas trocas de passes entre zagueiros e goleiros. Estes pegavam a bola, serviam os zagueiros e a recebiam de volta sem perigo. Veio a mudança.

Passou a ser penalizável com um tiro livre indireto o toque do goleiro com as mãos em bolas recuadas com os pés. Os goleiros passaram a ter que jogar com os pés e o futebol ficou mais dinâmico.

As pausas para comerciais não eram uma necessidade interna ao jogo. Gols podem acontecer em jogadas fortuitas, mas com frequência acontecem como resultado do volume, da imposição paulatina de uma equipe sobre a outra. Essa acumulação de ritmo é essencial, e é uma das razões pelas quais nunca se cogitou adotar no futebol um cronômetro que para, como no basquete ou no futebol americano.

Essa dinâmica está sendo destruída pelas pausas, que ameaçam a essência do jogo. O futebol acontece em uma temporalidade alongada, maleável, cheia de idas e vindas. Não é uma conquista linear de território, como no futebol americano. Não é uma alternância de posses de duração comparável, como no basquete. É uma temporalidade camaleônica, em que cada jogo deve encontrar sua respiração.

Essa relação com o tempo está sendo ferida de morte pela picotagem do jogo em quatro quartos. Já falam agora de aumentar o intervalo para meia hora, tempo suficiente para um show e mais propagandas.

É a superbowlização do futebol.

Continuemos sufocando as pausas comerciais com nossas vaias, até que os donos do negócio recuem, como recuaram, seis anos atrás, na criação da Super Liga.


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