Contador teria usado laranjas para gerar créditos fictícios de ICMS em TO
Novos detalhes da Operação El Dourado, que investiga o envolvimento de um contador por suposta participação em um esquema milionário de sonegação fiscal, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro que teria provocado prejuízo superior a R$ 55 milhões aos cofres públicos do Tocantins, revelam que grupo suspeito teria utilizado empresas de fachada para simular operações bilionárias no setor de grãos e gerar créditos fictícios de ICMS.
A operação, deflagrada inicialmente em março de 2026, já havia identificado a possível participação de profissionais ligados à contabilidade na criação e movimentação de empresas conhecidas como “noteiras”. Agora, a investigação aponta que os suspeitos também teriam usado pessoas em situação de vulnerabilidade social como “laranjas”, inclusive para validar movimentações bancárias por meio de reconhecimento facial.
Segundo a Polícia Civil, essas pessoas eram supostamente recrutadas para empresta o nome, documentos e identidade em troca de pagamentos mensais. Elas passariam a constar como sócias de empresas de fachada, que, conforme a apuração, eram usadas para dar aparência de legalidade a operações inexistentes de compra e venda de grãos, como soja e milho.
Biometria facial teria sido usada em transferências
Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores foi o suposto uso da biometria facial dos “laranjas” para autorizar transferências bancárias de alto valor. De acordo com a apuração, os suspeitos teriam controle sobre contas abertas em nome de terceiros, mas precisavam da validação facial exigida pelos aplicativos bancários para concluir determinadas movimentações.
Ainda segundo a investigação, integrantes do grupo teriam ido até os locais onde estavam essas pessoas para realizar o reconhecimento facial e liberar as operações financeiras. A suspeita é de que esse procedimento fosse repetido sempre que havia necessidade de movimentar valores elevados.
A Polícia Civil também apura relatos de supostas ameaças contra pessoas que teriam tentado deixar o esquema. Em um dos casos investigados, uma pessoa que teria emprestado o nome ao grupo tentou abandonar a organização após não receber o valor combinado e, conforme a apuração, passou a ser intimidada.
Empresas teriam estrutura incompatível com o setor de grãos
As empresas investigadas, segundo a polícia, funcionavam em locais com estrutura mínima, sem condições compatíveis com armazenamento, transporte ou comercialização de grãos. Algumas sedes teriam apenas salas pequenas, equipamentos simples e nenhum sinal de atividade agropecuária real.
Para os investigadores, essas empresas eram utilizadas apenas para emissão de notas fiscais e simulação de operações comerciais. O objetivo, segundo a apuração, seria criar créditos fictícios de ICMS, que posteriormente poderiam ser usados para reduzir indevidamente tributos de terceiros.
A investigação aponta ainda que programas de acesso remoto teriam sido instalados nos computadores das empresas para permitir que os supostos responsáveis controlassem as operações à distância. Pessoas contratadas para trabalhar nesses locais teriam a função de manter os endereços em funcionamento e reforçar a aparência de regularidade.
Investigação segue em andamento
A Operação El Dourado apura suspeitas de sonegação fiscal, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Entre os investigados estão profissionais ligados à área contábil, que, segundo a Polícia Civil, teriam atuado na estruturação das empresas, no recrutamento de terceiros e na movimentação financeira do suposto esquema.
Um dos suspeitos apontados pela investigação segue foragido. A polícia também apura a possível participação de outros envolvidos na organização e no funcionamento das empresas de fachada.
Todo o material apreendido nas fases anteriores da operação, incluindo celulares, notebooks, carimbos e documentos, deve passar por perícia. A análise dos equipamentos pode ajudar a esclarecer a extensão do suposto esquema e a eventual responsabilidade dos investigados.
Até a conclusão das investigações, os envolvidos são tratados como suspeitos. A responsabilização criminal dependerá do avanço da apuração e de decisão da Justiça.
Relembre o caso
Em uma das fases da Operação El Dourado, um contador de 32 anos foi alvo de mandado de busca e apreensão em Palmas. Ele é investigado por suposta participação no esquema que teria movimentado valores milionários por meio de empresas de fachada no setor de grãos.
Na ocasião, a Polícia Civil informou que uma das empresas investigadas declarou movimentação superior a R$ 464 milhões em apenas seis meses, mas recolheu apenas R$ 39 mil em tributos. O prejuízo estimado aos cofres públicos do Tocantins é de R$ 55,9 milhões.
A investigação também apontou que, quando uma inscrição estadual era bloqueada por suspeita de irregularidade, o grupo supostamente abandonava o CNPJ e ativava uma nova empresa de prateleira para dar continuidade às operações.
Com informações adaptadas g1 Tocantins