conheça os principais desafios da saúde no campo
Acordar antes do nascer do sol, passar o dia entre plantações, animais e máquinas e encerrar a jornada apenas no fim da tarde faz parte da rotina de milhões de trabalhadores rurais brasileiros. Nesse cenário, cuidar da própria saúde muitas vezes acaba ficando para depois.
A dificuldade de acesso a consultas e exames, as longas distâncias até unidades de saúde e a própria dinâmica do trabalho no campo ajudam a explicar por que muitos produtores e trabalhadores rurais só procuram atendimento quando os sintomas já estão mais avançados.
Esse é um dos cenários observados pelo programa Saúde no Campo, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que completa um ano de atuação com mais de 55 mil produtores e trabalhadores atendidos em 827 municípios de 25 estados. Ao todo, foram realizadas mais de 96 mil visitas por técnicos de saúde às propriedades rurais.
A iniciativa tem como foco a prevenção de doenças e a promoção da saúde por meio de acompanhamento contínuo, orientações sobre hábitos saudáveis e encaminhamento para a rede pública quando necessário.

Cuidar da saúde nem sempre cabe na rotina
O produtor rural Wilmar Feitosa conhece bem essa realidade. Há 15 anos trabalhando com a produção de hortaliças em Alto Paraguai, no Mato Grosso, ele mantém uma rotina que começa às 5h da manhã e só termina por volta das 18h.
“A falta de tempo para me deslocar até uma unidade de saúde mais próxima era a principal dificuldade”, conta. Na prática, segundo ele, conseguir atendimento médico ou realizar exames ainda está longe de ser simples.
A experiência de Wilmar reflete uma realidade observada em diferentes regiões do país. De acordo com o médico Renilson Rehem, diretor de Saúde e Promoção Social do Senar, o acesso limitado aos serviços de saúde continua sendo uma das principais barreiras enfrentadas pela população rural.
“A distância dos serviços, as dificuldades de deslocamento, a disponibilidade limitada de profissionais em determinadas regiões e, muitas vezes, a própria rotina de trabalho podem retardar a procura por atendimento”, explica.
Segundo ele, existe ainda uma cultura muito presente no meio rural de colocar o trabalho à frente do cuidado com a própria saúde.
“Em muitos casos, as pessoas procuram atendimento apenas quando os sintomas já estão mais avançados. Como consequência, condições que poderiam ser identificadas precocemente acabam sendo diagnosticadas mais tarde”, aponta.
Doenças silenciosas preocupam
Hipertensão arterial, diabetes e doenças cardiovasculares estão entre os problemas mais frequentemente observados entre produtores e trabalhadores rurais. Rehem destaca que o envelhecimento da população rural e a dificuldade de acesso a ações preventivas também contribuem para o surgimento de complicações que poderiam ser evitadas.
“Os desafios não decorrem apenas de condições clínicas. Existem fatores sociais, econômicos e territoriais que influenciam diretamente a saúde e a qualidade de vida das famílias rurais”, diz.
A diretora adjunta de Saúde e Promoção Social do Senar, Érika Bommer, afirma que as doenças crônicas aparecem de forma recorrente entre os participantes do programa.
“As condições mais frequentemente identificadas incluem hipertensão arterial, diabetes, excesso de peso e demandas relacionadas à saúde mental”, afirma.
Ela destaca que muitas famílias também apresentam necessidades relacionadas à atualização vacinal, alimentação saudável, prática de atividade física e uso correto de medicamentos.
“O programa trabalha com uma visão mais ampla da saúde, considerando não apenas as doenças já instaladas, mas também os fatores que podem aumentar o risco de adoecimento”, acrescenta a especialista.
Realidade diferente da urbana
Embora a distância até hospitais e postos de saúde seja um problema conhecido, Érika ressalta que muitos serviços de saúde ainda funcionam com uma lógica pensada para os centros urbanos, o que nem sempre atende às necessidades de quem vive no campo.
“Horários de funcionamento incompatíveis com a rotina rural, dificuldades para marcação de consultas e exames, escassez de profissionais e limitações de transporte são situações frequentemente observadas”, cita.
Ela explica que muitas comunidades rurais sequer contam com transporte público regular, tornando ainda mais difícil o acesso aos serviços. Por isso, iniciativas que aproximem o cuidado das propriedades e utilizem recursos como a telessaúde podem ajudar a reduzir parte dessas barreiras.
Acompanhamento mais próximo
A proposta do Saúde no Campo é justamente levar orientações e acompanhamento diretamente às famílias rurais. Durante as visitas periódicas, os técnicos monitoram indicadores de saúde, orientam sobre prevenção de doenças e acompanham a evolução dos participantes.
Além dos aspectos ligados à saúde individual, o programa também aborda fatores relacionados às condições de vida, como saneamento básico, qualidade da água, destinação correta do lixo e condições de moradia.
Segundo dados do Senar, cerca de 20 mil participantes relataram algum tipo de doença e passaram a receber orientações individualizadas para controle e prevenção de complicações.
Para Wilmar, o acompanhamento trouxe mudanças concretas para o dia a dia. “Mudou muita coisa. Temos acompanhamento mensal de uma profissional da área que esclarece e tira nossas dúvidas em relação à saúde”, diz.
Entre as mudanças incorporadas à rotina estão hábitos que antes ficavam em segundo plano. “Recebemos orientações sobre alimentação saudável e sobre a importância da atividade física. Hoje fazemos caminhada e alguns exercícios”, afirma.
Segundo Renilson, esse acompanhamento contínuo pode fazer diferença especialmente no controle das doenças crônicas. “Quando as pessoas recebem orientação próxima e regular, tendem a aderir melhor aos tratamentos, compreender a importância da prevenção e monitorar mais adequadamente sua condição de saúde”, finaliza.