como a monotonia da estrada pode causar acidentes
Quem costuma pegar estrada sabe que é necessário ter atenção redobrada com os perigos da pista causados por condições adversas do tempo e a imprudência de outros motoristas. Porém, chegar ao destino final também exige que o condutor esteja atento a si mesmo, especialmente quando o trajeto é monótono.
A falta de estímulos visuais e a paisagem repetitiva podem levar a um estado mental conhecido como hipnose rodoviária. O fenômeno psicofisiológico ocorre quando há uma hipovigilância, tornando a atenção e o sistema de alerta menos eficientes. Em outras palavras, é como se o cérebro do motorista entrasse no piloto automático.
Segundo o neurologista Pedro Brandão, a previsibilidade do ambiente faz com que aconteça um “desligamento” parcial da atenção, deixando o cérebro menos engajado para estar atento à tarefa de dirigir.
“Estudos com eletroencefalograma (EEG) mostram que na hipnose rodoviária há aumento de atividade nas ondas alfa e teta, que são padrões cerebrais associados à sonolência e à redução da atenção. Há também diminuição da atividade em regiões cerebrais responsáveis pelo processamento de estímulos externos e pela manutenção da atenção sustentada”, explica o especialista do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília.
Além da monotonia da estrada, o estado mental pode ocorrer devido a períodos prolongados de direção, privação de sono dias antes da viagem, direção em horários de baixa atividade circadiana, como de madrugada e após o almoço, e estimulação sensorial insuficiente.
“A depender da intensidade do estado de hipnose rodoviária, ele pode fazer o motorista perder até a destreza das ações básicas da direção sem percepção consciente à tempo, fazendo o carro sair da estrada, invadindo a contramão, não fazendo uma curva de maneira adequada ou não reduzindo a velocidade”, alerta o neurologista Thiago Taya, do Hospital Brasília Águas Claras.
Estratégias simples podem evitar a hipnose rodoviária
A hipnose rodoviária é um fenômeno natural e não ocorre devido a fatores extras, como malformações cerebrais ou fatores genéticos, podendo acontecer com qualquer pessoa.
Alguns hábitos simples podem reduzir os efeitos provocados pelo estado mental. Entre eles, estão:
- Faça pausas regulares durante a viagem, especialmente a cada duas horas ou após 150 a 200 quilômetros rodados;
- Consuma bebidas com cafeína, como café e energéticos, que ajudam a retardar a diminuição da atenção e manter o corpo mais acordado;
- Durma ao menos de nove a 12 horas por noite 48 horas antes de pegar estrada;
- Tire cochilos de 15 a 20 minutos em pontos de parada durante o trajeto para melhorar o estado de vigilância temporariamente;
- Táticas como ouvir música ou conversar com os outros passageiros auxiliam a manter a atenção;
- Em viagens longas com outras pessoas, opte por “dividir” o volante;
- Se sentir o cansaço, não tente forçar e pare em locais de descanso o mais rápido possível.
Outras estratégias, como abrir a janela ou elevar o volume do rádio, podem ajudar, mas têm efeito temporário no estado de alerta. “As pausas com descanso real e cafeína são as medidas com melhor comprovação científica”, aconselha Brandão.