Com apenas uma pista, Brasil ainda engatinha no curling – 11/02/2026 – Esporte


Chamativa modalidade para quem não está habituado aos esportes praticados no gelo, o curling tem despertado a atenção dos espectadores brasileiros que acompanham os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, na Itália. O esporte tem poucos adeptos no Brasil, onde só há uma pista oficial, em São Paulo.

À primeira vista uma espécie de bocha no gelo, a disputa consiste no arremesso de pedras de até 20 kg de granito em uma pista congelada com o objetivo de levá-la o mais perto possível do centro do alvo. Uma objeto semelhante a uma vassoura é esfregado no solo para facilitar o deslizamento da peça.

Os primeiros registros indicam que o esporte passou a ser praticado em lagoas congeladas da Escócia em meados do século 16. A estreia nos Jogos de Inverno foi logo na primeira edição do evento, em Chamonix, na França, em 1924.

Entre idas e vindas, a prova entrou definitivamente no programa olímpico nos Jogos de Nagano, no Japão, em 1998, chegando agora à sua nona aparição em Milão-Cortina. O Brasil —que levou à Itália sua maior delegação na história, com 14 atletas— nunca se classificou para a disputa do curling em uma edição olímpica.

O histórico do país na modalidade é bem recente. Um grupo de brasileiros residentes no Canadá foi quem deu início à prática esportiva representando o Brasil em competições internacionais, no fim dos anos 2010. As primeiras edições do Campeonato Brasileiro, inaugurado em 2015, aconteceram em Vancouver.

O primeiro Campeonato Brasileiro efetivamente realizado em em solo brasileiro ocorreu apenas em 2022, após a inauguração, dois anos antes, da Arena Ice Brasil, na região do Morumbi, em São Paulo, onde está a única pista oficial de curling da América Latina. A administração é da CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo).

Além de abrigar competições oficiais, o espaço na capital paulista recebe amadores e iniciantes interessados em se aventurar no esporte.

A confederação oferece aos praticantes calçados com solados especiais que facilitam a movimentação em cima do gelo —uma sola aderente (“gripper”) e uma deslizante (“slider”)—, além das vassouras que servem para reduzir o atrito da pedra com o gelo, feitas com fibras de carbono, chamadas de “brooms”.

“A gente apresenta a modalidade aos iniciantes e os encaminha para os clubes, como o Clube Curling Brasil, em que eles vão poder aprender desde o zero com atletas e treinadores experientes”, afirmou Tatiani Garcia, coordenadora do curling olímpico e paralímpico da CBDG. “Até buscamos essas pessoas para descobrir novos talentos.”

Ela estima que a comunidade brasileira de curling soma hoje cerca de 300 jogadores, espalhados por Brasil, Canadá e alguns países da Europa.

Segundo a coordenadora da CBDG, o curling é uma modalidade considerada democrática. Os praticantes podem fazer seus primeiros lançamentos e varridas no gelo a partir dos seis anos de idade e seguir no esporte além dos 50 sem maiores problemas.

“Esse é um esporte em que é preciso obter muita experiência para conseguir evoluir, e a gente vem melhorando muito a nossa base. É onde temos mais investido, nos atletas de 9 a 21 anos”, disse Tatiani.

No curling em cadeira de rodas, o Brasil debutou no ano passado no Mundial da categoria, na Escócia. A seleção brasileira e a Noruega foram as duas únicas a vencer o Japão, que seria o campeão.

No início de fevereiro, durante a primeira semana dos Jogos de Milão-Cortina, quando houve naturalmente um maior interesse do público em torno do esporte, a pista da Ice Brasil não estava disponível para treinos ou partidas oficiais, devido a problemas técnicos na máquina importada do Canadá responsável pela formação do gelo.

“Diria que o curling brasileiro é uma modalidade ainda em desenvolvimento”, disse Fernanda Tieme Marques, diretora da CBDG e atleta, que começou no esporte há cerca de sete anos, quando morava na Suíça. Ela fez parte da equipe campeã brasileira em 2025, na categoria feminina, e tem passagem pela seleção nacional, nas duplas mistas.

Fernanda explicou que a seleção brasileira integra a Série C nas principais competições internacionais, o que corresponde à terceira divisão mundial. Para buscar uma vaga nas Olimpíadas de Inverno, é preciso primeiro avançar até a Série A.

O Brasil é o atual 30º colocado do ranking mundial feminino (são 47 equipes), o 37º do masculino (61 equipes) e o 42º nas duplas mistas (52 equipes). A Suíça lidera o ranking feminino; a Escócia, o masculino e o das duplas mistas.

“O sonho de uma participação olímpica ainda está um pouco distante”, afirmou a diretora da CBDG.

Um dos principais resultados do país até aqui foi nas categorias de base. Em janeiro de 2024, o Brasil conquistou sua primeira vitória olímpica, com um triunfo por 6 a 4 sobre a Alemanha nos Jogos de Inverno da Juventude, na Coreia do Sul.

“Todo o mundo ficou muito emocionado. Há países com anos de história no esporte, e o Brasil é um país ainda em desenvolvimento. Uma conquista assim é como se fosse um título, e é muito legal ver nossa juventude já representando”, afirmou Tatiani.

Segundo ela, apesar de comumente comparado com a bocha, o curling é no meio dos esportes de inverno tratado como “o xadrez no gelo”.

“Assim como o xadrez, o curling é muito estratégico. Quando vamos fazer o lançamento da pedra, é preciso pensar duas ou três jogadas na frente”, afirmou a coordenadora.

“As principais características do curling são a estratégia, a precisão e também o trabalho em equipe. E, diferentemente da bocha, em que o chão não interfere tanto no jogo, o gelo interfere muito no curling.”

Entenda as regras do curling

— Partidas são disputadas em pista de gelo de 45 metros de comprimento e cinco metros de largura;

— Cada partida das categorias masculina e feminina é composta por dez “ends” (o equivalente aos sets no tênis);

— Cada time, formado por quatro atletas, tem direito ao lançamento de oito pedras por “end”;

— Ao final do lançamento das 16 pedras, vence o “end” o time que tiver as pedras mais próximas do centro do alvo (chamado de “botão”).



Fonte da Notícia